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domingo, 19 de outubro de 2025

Tempos de Escuridão (2020)

Uma das coisas que mais mexem comigo em um filme é o poder de transformação que ele promove sobre meus pensamentos após assisti-lo. A somatização da reflexão, empatia, revolta e por vezes alívio diante dos desdobramentos felizmente positivos são alguns movimentos internos que me deixa impactado e até resiliente para os desafios que deparo no dia a dia. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) continua sendo um assunto bastante latente mais de 80 anos depois, com feridas abertas e cicatrizes mal curadas que assolou gerações e ainda assombra a vida de milhares de pessoas. Diante disso, inúmeras produções cinematográficas foram produzidas sobre o tema, com a tentativa de preencher esse enorme quebra-cabeças histórico.

Muitos países foram envolvidos nesse conflito, alguns declararam apoio forçado, outros mantiveram uma neutralidade que no final das contas foi insolúvel, já que a ocupação direcionava aos interesses beligerantes. A Dinamarca foi um desses países com bandeira branca, mas que se viu amordaçada por uma Alemanha opressora e cada vez mais influente na política interna do país. O filme “Tempos de Escuridão” (De forbandede år / Dinamarca / 2020) é a primeira de duas partes que mostra essa interferência que vai se formando gradativamente, com uma escalada de violência física e psicológica nos pacatos residentes do país. Tentei assistir a esse filme algumas vezes, porém, por uma questão de falta de sincronismo da legenda na transmissão do streaming do Looke, meu interesse era momentaneamente drenado.

Mas o problema foi resolvido e ao acessar o filme no catálogo, logo percebi que poderia assistir sem maiores sobressaltos. A história gira em torno do industrial Karl Skov (Jesper Christensen), dono de uma fábrica de eletrônicos, com uma produção que vai de vento em popa, sendo obrigado a mudar os rumos do seu negócio quando ocorre a invasão alemã em seu país em 1940. Num primeiro momento, questões políticas e sociais sofrem poucas interferências, mas no decorrer do tempo os invasores iniciam uma sequência de perseguições a pessoas de origem judia e à todos que se manifestam contra o regime nazista. O ponto nevrálgico a partir desse momento é a enorme discrepância de pensamentos da família de Karl, seus filhos e esposa, além dos empregados, cada qual com segredos perigosos.

O passado de Karl não é retratado, mas em 1940 temos o protagonista com uma idade beirando os 75 anos, com um filho (Michael, Gustav Dyekjær Giese), servindo às Forças Armadas do país, provavelmente do primeiro casamento. Já na segunda relação, temos inclusive a celebração do aniversário de 25 anos de matrimônio de Karl e Eva Skov (Bodil Jørgensen). Nesse contexto, os quatro filhos do casal são descritos com personalidades e interesses absolutamente diferentes. O mais velho, Aksel Skov (Mads Reuther), um jovem idealista que apoia à Resistência (une-se a clandestinos que pretendem derrubar o regime nazista por meio de atentados contra as instalações físicas do Eixo), sempre movido por ações impulsivas. O eventual apoio da Dinamarca ao regime nazista contra os comunistas da União Soviética é o primeiro desacordo entre ele e o meio-irmão Michael, já que esse último acredita que poderá servir o seu país por ideal coletivo acima de qualquer coisa.

Os outros filhos do casal são Knud Skov (Lue Dittmann Støvelbæk), um jovem músico de jazz que possui uma limitação física para andar, Helene Skov (Sara Viktoria Bjerregaard), uma jovem adolescente que logo se apaixona por um Oficial da Marinha alemã, provocando uma erupção dentro da família e o adolescente Valdemar Skov (Sylvester Byder). O bom de ser um filme longo, de aproximadamente 2 horas e meia, é que é possível aprofundarmos em vários personagens e suas motivações. Mas o que realmente atrapalha muito é a desinformação que ocorria naquela época, pois ninguém tinha a menor ideia do que estava acontecendo na Alemanha. A propaganda local só pedia para os dinamarqueses serem cordiais com a presença alemã no país, pois qualquer comportamento contrário poderia ocasionar crises institucionais.

Karl é movido pela crença de que as pessoas têm boas intenções, apesar de mostrar-se contrário à presença alemã na Dinamarca, ainda acreditava no Parlamento e que a guerra acabaria em breve. Isso o levou a quase perder a fábrica, antes disso já havia feito dezenas de demissões, para que pudesse mantê-la em funcionamento. Sempre resistente a realizar acordos comerciais com os alemães, logo é demovido dessa intenção, acaba sendo absorvido pelo sistema e celebra contratos de cooperação, mesmo sem saber ao certo para qual finalidade sua produção atenderia aos interesses alemães. Paralelo a isso, seus filhos corriam em direções opostas, um participava da guerrilha e era perseguido pela polícia local, que apesar de ainda ser gerida pela Dinamarca, a influência nazista era evidente, pois eles cumpriam diversos mandados de prisão ordenados pelo regime nazista instalado no país.

Apesar de toda desordem, Karl ainda conseguia manter um nível de vida confortável para sua família, mas a medida que o tempo passava, o que era tida como uma ocupação provisória e “pacífica” desde 1940, esse fato já não se repetia nos anos seguintes, com uma intensificação da violência e interferência direta na política e qualquer atividade comercial do país pelos alemães. A Dinamarca não era mais uma nação neutra, ao contrário, estava amordaçada e obrigada a seguir as ordens da Alemanha. Karl tentava manter a sanidade para evitar que infligissem sua família e os negócios, mas seus filhos seguiam caminhos conflituosos e destoantes, cada dia era um problema a ser administrado com a polícia local, que milagrosamente era amigável com Karl. A esposa de Karl se mostrava cada vez mais contra o regime nazista, por algumas vezes colocando essa insatisfação em evidência, gerando um clima claustrofóbico que poderia colocar a família em grande risco.

Muitas pessoas não tiveram escolhas, simplesmente foram absorvidas para aquela hecatombe de atrocidades humanas, movidas em quase todos os momentos pela falta de informação ou mesmo propagação de notícias falsas. O filme deixa isso bem claro quando Karl tranquiliza a esposa dizendo que um casal de amigos de origem judia foi deslocado para um “Campo de Trabalho”, mostrando que ninguém tinha ideia do que eram aquelas instalações de extermínio de judeus. Karl passa a ter uma breve noção das terríveis atrocidades cometidas quando Michael retorna de uma missão e no encontro o filho relata que era obrigado a fazer pessoas a cavarem a própria cova e depois atiravam em suas nucas com o “sangue dessas pessoas espirrando nele”. Foi um momento de choque traumático, ainda mais vindo de uma pessoa que ansiava em servir à pátria com ações altruístas.

Deixarei o restante da experiência a cargo de quem se interessar em assistir, mas afirmo que é um excelente filme, mostrado sob o ângulo de uma nação que nada tinha a ver com toda aquela confusão instalada na Europa na primeira metade do século passado. Essencial para que as reflexões continuem vivas e não se percam nas páginas do passado. A vigilância é imprescindível para que não deixemos essas atrocidades serem repetidas.

E mais um recado: leia livros, seja bem informado nas coisas que acredita para que possa defendê-las com argumento e sabedoria!

sábado, 11 de outubro de 2025

A Mulher na Cabine 10 (2025)

 

Para quem gosta de mistério, esse filme garante um bom programa para o final de semana, já que reúne bons elementos detetivescos ao longo da trama. A primeira coisa a se fazer é não confiar em nenhum personagem, pois cada um guarda, esconde ou omite segredos relevantes para seus propósitos. É claro que dizer que todos os personagens são culpados beira a histeria, afinal, um filme de pouco mais de 90 minutos soaria superficial demais para conseguir cobrir várias camadas. Dito isso, vou falar um pouquinho de “A Mulher na Cabine 10”, que acabou de chegar à plataforma da Netflix, mais precisamente no dia 10 de outubro de 2025. Só para lembrar, esse filme é baseado no livro homônimo da autora inglesa Ruth Ware.

O componente psicológico é a mola central para que “grudemos” a atenção na protagonista, a jornalista Lo Blacklock (Keira Knightley), que retorna ao trabalho após uma breve pausa em função de uma matéria de campo produzida e publicada por ela que infelizmente terminou com a morte de uma pessoa. Essa morte em questão é mostrada em flashbacks picotados das lembranças da jornalista, algo importante para o que virá pela frente. Logo no primeiro dia no escritório, em poucos minutos à frente do computador, a jornalista recebe um convite tentador: escrever uma matéria in loco sobre milionários que passarão o final de semana em alto-mar para celebrar um evento filantrópico. A paisagem natural é um ponto de impacto, golaço da produção!

A bordo da viagem inaugural do iate Aurora Borealis, os convidados foram recebidos por champagne chique, passando por um rito de boas maneiras, como por exemplo a obrigatoriedade de tirar os calçados antes do embarque, nada como uma introdução tranquila e didática. Os personagens são caricatos, todos com caras, bocas e olhares aleatórios, mas sempre com os seus egos monetários exalando futilidades em cada frase. Empresário, socialite, influencer, roqueiro, médico, fotógrafo paparazzi e seguranças “altamente” profissionais, todos em cena para promoverem um final de semana inesquecível em alto-mar. O casal anfitrião e “podres” de rico são formados pelo Richard Bullmer (Guy Pearce) e Anne Bullmer (Lisa Loven Kongsli), essa que enfrenta um câncer terminal e que exigiu a presença da jornalista Lo Blacklock na viagem.

Sou compreensivo quando o filme não consegue dar o merecido espaço a muitos personagens, o tempo é curto e existe a necessidade de concentrar forças no núcleo principal, volta e meia destinado a no máximo três (e olhe lá!). Por isso, a sequência de cenas não permite divagações, cada tomada é uma peça de quebra-cabeças, todos vão formando um corpo e ao final, descobrimos a motivação do crime ocorrido. Dentro desse labirinto de fantasias criada por uma mente engenhosa, não era esperado que justamente a personagem principal fosse descobrir fragmentos do “crime perfeito”, chamando a atenção para pessoas preocupadas tão e somente com suas contas bancárias e aparências físicas do que creditar valor a um “grito de socorro” para algo muito grave que aconteceu e que passou despercebido por todos que estavam naquela embarcação.

Estou tentando não dar spoilers, acho desagradável estragar a experiência de quem gosta de investigar por seus próprios instintos. Posso dizer que a “pobre” Anne Bullmer enfrenta um câncer terminal e uma de suas últimas vontades era doar toda sua riqueza para uma instituição de caridade, isso mostrar no primeiro encontro entre ela com a Lo Blacklock, convidada para “melhorar” o texto a ser discursado diante dos convidados. Cansada, ela encerra a conversa e pede que a jornalista retorne no dia seguinte para continuarem com a revisão do texto. É a partir desse instante que muitas coisas passam a ocorrer ao mesmo tempo, talvez por isso o roteiro “entrega de bandeja” informações “mastigadas” para o telespectador.

Algumas cenas de continuidade deixam a desejar, como o momento em que jornalista simplesmente “aceita” a versão de que as câmeras da embarcação estão desligadas por se tratar de um evento privado com pessoas muito importantes da alta cúpula social que requerem privacidade. Por que ela não duvidou disso e tentou à própria sorte descobrir se isso era mesmo verdade? O fotógrafo “boca aberta” que se comporta como um idiota quase que o filme inteiro e em certa parte muda radicalmente de postura, revelando um roteiro consertado como esparadrapo. No mais, alguns personagens são letárgicos em seus papéis, engessados por comportamentos figurantes, com sobressaltos (necessários) aqui e ali. Caminhando para o final, a jornalista se depara com fantasmas psicológicos do último caso em que esteve envolvida, seguida de uma tentativa de homicídio que sofreu no iate, desacreditada por todos.

A Mulher na Cabine 10 merece minha nota 8 (número da cabine da Lo Blacklock), pois entrega mais do que eu mesmo esperava pela curtinha duração. Ainda acho que seria melhor desenrolado se fosse transformada em uma série de 8 episódios ou coisa do tipo, quem sabe isso possa ser realidade no futuro. Tentei não dar spoilers, apesar que o filme faz isso a cada 15 minutos (risos) com suas tomadas autodescritivas. E por último, encerrando minha breve análise, digo: sim, para quase tudo no mundo material, o dinheiro fala ou grita mais alto. Fica a dica!

Até a próxima!

Obs.: prometo falar de música, tema do meu blog (risos).

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Ataque Alienígena (2020)


Por Daniel Gonçalves


Um filme que apresenta ambiguidade em seu tema central é no mínimo ousado. Por outro lado, a produção precisa ter uma narrativa convincente para não dispersar o telespectador, ainda que a ideia seja de outro planeta (pegaram a referência?!). O que temos aqui é “Ataque Alienígena”, lançamento de 2020 e que assisti no dia em que este texto foi ao ar, apesar que tenho que confessar que já havia assistido e que só lembrei disso após 15 minutos de tela. Mas segui em frente, a percepção “apagada” do meu gigante “cinzento” cerebral foi o principal motivo para repetir a experiência, que inescapavelmente teria um novo sabor de ineditismo.

Gosto de saber das teorias da conspiração que envolve ufologia, é um terreno bastante fértil e tudo pode se tornar uma verdade se for bem contada. Já o filme, com a seriedade britânica latente em toda a trama, não abre espaço para piadas ou qualquer outro tipo de alívio cômico. A atmosfera nevoada do princípio ao fim é uma cortina que ajuda a história ganhar um corpo resistente aos deslizes de interpretação. Na verdade, é muito difícil padronizar uma forma de comportamento de reações humanas quando a peça do outro lado é incompreensível. E os extraterrestres, desde os primórdios de suas histórias, é um prato cheio para as mais diversas teorias. Eu quero acreditar que os alienígenas existem, mas sempre me deparo com um “paredão” da falta de argumentos que sustentem minimamente essa possível existência.

Ponto positivo é o fato de não ser um filme arrastado para uma malemolência inútil, que muitas vezes leva nada a lugar algum, ao contrário, a tensão instalada é genuína e a busca por alternativas também merece o devido crédito. Tudo começa com a notícia de um suicídio em uma fazenda situada numa zona rural da Inglaterra, levando a sargento Zoe Norris (Katherine Drake) a ir ao local para investigar o caso. Chegando lá, em rápida conversa com a inconsolável viúva da vítima, presencia outro suicídio, de forma inexplicável a interlocutora resolve dar cabo à própria vida. Isso mexe com o “tico e o teco” da protagonista, que solicita apoio pelo rádio, mas sem sucesso. Aquela altura, os telefones e outras formas de comunicação já estavam em frangalhos. Apenas o rádio portátil ponto a ponto, na frequência da delegacia, ainda funcionava.

No caminho de volta ela se depara com um corpo degolado na estrada e resolve seguir um rastro de sangue. Ainda impactada pelos últimos acontecimento, entra na casa misteriosa e encontra um homem falando coisas desconexas, momento em que é confrontada pela primeira vez com um organismo vivo não identificado. Pouco depois, temos a primeira demonstração de que “estamos sendo invadidos”, uma gigante nave escura sobrevoa o nublado céu do entardecer, mostrando toda sua imponência diante da protagonista e também de nós, telespectadores. Da nave saltaram alguns robôs sem formato definido, mas nada amigáveis. Era algo como “fique para ser aniquilado” ou “corra para tentar salvar o seu pescoço”, esta última o caminho escolhido pela policial, que seguiu a toda velocidade para o lado oposto.

O segundo ato se passa em um bar, onde uma chacina já havia ocorrido. Um pequeno grupo de sobreviventes, liderado pelo outro policial da cidade, consegue se esconder das intenções hostis das máquinas vivas. Patrick (Ritchie Crane) é subordinado da sargento Norris e, por isso, aguarda dela as decisões sobre os próximos passos. O problema é que a protagonista, recém-chegada à região, vinda do Canadá por motivos pessoais, ainda não está familiarizada com o ambiente local. É interessante que os alienígenas finalmente se revelam, mas de forma fantasmagórica: figuras imponentes, com mais de 4 metros de altura, usando máscaras e vestindo capas de frei franciscano, que remetem aos tempos medievais.

Ainda sobre os seres gigantes de outro planeta, eles não dizem uma única palavra, caminham lentamente como se fosse uma alegoria carnavalesca (mas bizarra), e sua presença, mais do que qualquer outra coisa, causa pavor. O grupo, psicologicamente esfacelado pela iminência da morte, se vê em um dilema: permanecer escondido ou arriscar se mover para outro local, na tentativa de escapar de seus algozes. Encontram uma camionete e zarpam para outro lugar de “desenvolvimento” cinematográfico. A delegacia, que era para ser o bunker dos sobreviventes, acaba sendo um estorvo repleto de portas e janelas que mais deixam eles expostos do que protegidos (no filme é revelado que o local é um espaço negligenciado pelo governo). E as máquinas rapidamente chegam ao novo campo de batalha, acessando o local sem qualquer resistência.

Daí por diante é história de ficção científica para as pessoas com a “mente aberta”, que é refletida na questão da ambiguidade que levantei no início desta análise. Em nenhum momento é mostrado um ataque partindo dos alienígenas contra a vida humana. O que é mostrado nada mais é que uma retaliação justificada pelo ataque inicial feito pelos humanos, e a resposta é aplicada exemplarmente. Ocorre que a forma das intervenções se dá por meio de uma seringa aplicada no pescoço dos vitimados. Outro ponto que não mencionei é que algumas pessoas são afetadas por fortes dores de cabeça e também nos ouvidos, que chegam a sangrar. Não ficou claro o que de fato leva ao suicídio, talvez o som ensurdecedor que poderia causar algum estrago na mente dos mais suscetíveis a essa investida.

No final das contas, um filme que gostei pela honestidade em propor situações de fácil compreensão, e que deixa um importante recado sobre a ignorância, que muitas vezes leva a consequências irreparáveis. A cena no vagão de trem vira a cabeça de qualquer um do avesso e levanta muitas questões, como: “Será que os extraterrestres são realmente hostis?” ou “Eles querem destruir ou salvar o nosso planeta?”. Não consigo chegar a uma conclusão, mas o que sei, de forma pura e genuína, é que nada sei!

O filme “Ataque Alienígena” está disponível no serviço de streaming Looke e tem a classificação indicativa não recomendável para menores de 16 anos.

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Dados técnicos:

Nome original do filme: Alien Outbreak.

Direção: Neil Rowe.

Roteiro: Neil Rowe.

Duração: 84 minutos (com abertura e créditos finais).

Procedência: Reino Unido.

Ano de lançamento: 2020.

Disponível: Looke.

domingo, 15 de dezembro de 2024

Medo (2023)



Por Daniel Gonçalves

Terminei de assistir ao filme “Medo” com a empolgação reduzida em relação à expectativa criada pelo meu imaginário. Confesso que fiquei um tanto consternado por não ter experimentado o impacto que parecia prometido. A palavra “medo” tem um poder quase universal, tocando a essência do ser humano e refletindo nossa própria humanidade. Sentir medo é natural, é um mecanismo de defesa que nos previne de diversas situações, mas também atua contra nós, afetando nossas ações e decisões em quase todos os aspectos da vida. O filme, por sua vez, se mostra errático em vários momentos, ao misturar elementos bíblicos com a história das bruxas do século XVII.

A história está centrada em traumas do passado dos personagens, que acaba sendo revelado de bandeja para o telespectador logo no início, em uma roda de fogueira (noturna, é claro), onde cada um expõe o que mais perturba desde sempre em seus íntimos. Pessoas passando por problemas profissionais e psicológicos, impulsionado por uma grande pandemia viral (foi gravado na época da pandemia global da COVID-19), em que um deles tem a brilhante ideia de convidar a todos a passar um final de semana de reclusão numa grande mansão no meio do nada. Construção antiga, que foi restaurada após um grande incêndio que destruiu o prédio original. E será nesse casarão de veraneio que um espírito maligno precisa se alimentar para continuar assombrando o espaço.

A “dona” da pensão é uma velha senhora que mais parece a Bruxa do 71 (não sei como tive coragem de trazer Chaves para a conversa – risos), que no ato de boas-vindas fez questão de fotografar o grupo de turistas para fazer valer a tradição do lugar. Foto instantânea registrada por uma câmera polaroid descolada, gostei desse recurso tecnológico usado pela anfitriã. E outra coisa que mostra o avanço temporal do lugar é o ótimo sinal de Wi-Fi (os espíritos medievais mostrando que não ficam pra trás!). Mas antes de sair de cena, a velha senhora presenteia a galera com uma garrafa de vinho, presente aceito de muito bom grado. A partir desse momento alguns fatos isolados começam a acontecer, bem de leve, mas que começa a levantar as primeiras suspeitas do lugar.

Os personagens começam a confrontar seus medos, sendo que ninguém aparenta perder o controle das ações, exceto quando são pegos desprevenidos, em sonhos (ou pesadelos), por exemplo. A vigilância pessoal começa a ponto de todos serem ludibriados por um medo em comum: da pandemia que assola o planeta. Todos são convencidos por uma notícia na TV de que um poderoso vírus surgiu e a transmissão se dá por meio do ar, ou seja, são obrigados a ficar trancafiados no casarão. Esse foi o “pulo do gato” do filme, um gatilho coletivo que encurralou todos, sem exceção. E a medida que o grupo começa a explorar a casa, vão descobrindo coisas bizarras e desconexas, o que nos permite a divagar sobre realidade e imaginação. Bom, posso dizer que agora o filme de fato “começou”.

Uma das personagens toma a difícil decisão de sair do casarão para encontrar com seu filho (escolha acertada – pequeno spoiler), superando o medo em comum que envolve o grupo. A partir desse momento ladeira abaixo para todos que decidiram permanecer nas dependências daquela mansão. A casa revela ser uma espécie de organismo vivo, ainda que de relance por meio de sombras, maçanetas “nervosas”, goteiras surgidas de repente, mudanças na arte de quadros na parede, entre outras esquisitices, que faz cada um sucumbir em paranoias, resultando em automutilações forjadas a partir da crença em seus medos. Demorou um pouco para eles entenderem que estavam sendo caçados por um espírito faminto.

É nesse ponto que a história das bruxas entra em cena, mas, para minha surpresa, foi mal explorada. A relação entre o baú de fotografias encontrado em um dos grandes porões do local e os demais objetos descobertos – todos supostamente ligados a um culto secreto que venerava energias negativas, sustentando a alta densidade daquele ambiente – não ficou clara. Além disso, uma passagem bíblica recitada em voz alta serve para materializar a “água benta”, que exorciza o espírito maligno que ameaça devorar a alma de todos os presentes. No entanto, essa solução careceu de elementos que realmente me convencessem. Esse processo, aliado à falta de coragem, sugere que o verdadeiro antídoto para os obstáculos enfrentados pelos personagens é esvaziar a mente dos pensamentos que alimentam o medo pessoal. Isso enfraquece o poder do espírito maligno e devolve a sanidade, restaurando o autocontrole.

Um terror psicológico que se aproveita de fraquezas mal resolvidas na cabeça das pessoas, assumindo o controle das ações delas, muito para promover uma confusão emocional que pode levar a consequências irreversíveis, e não estou falando somente do pior resultado, identificado no óbito, mas também de traumas permanentes que pode afetar uma vida inteira. Eu entendi a proposta do filme, só não fiquei confortável com a areia movediça teatral dos primeiros quarenta minutos, uma espécie de “aquecimento” desnecessário, que desidratou o meu interesse em vários momentos. A foto do grupo, registrada pela polaroid, recuperada em certo momento e que mostrava os personagens ceifados com um borrão foi o clichê mais barato que eu vi em toda trama, superou até o vinho barato de 1938 que a galera tomou pensando que era do garbo de um D.V. Catena (risos).

O filme “Medo” está disponível no serviço de streaming MAX e tem a classificação indicativa não recomendável para menores de 12 anos.

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Dados técnicos:

Nome original do filme: Fear.

Direção: Deon Taylor.

Roteiro: Deon Taylor e John Ferry.

Duração: 99 minutos (com abertura e créditos finais).

Procedência: Estados Unidos da América.

Ano de lançamento: 2023.

Disponível: MAX.

domingo, 13 de outubro de 2024

A Conferência (2022)



Por Daniel Gonçalves

O peso de escrever a respeito de algo que aconteceu num passado não muito distante, separado por menos de um século, é desafiador por diversas razões. Os tempos são outros, as experiências foram outras, o mundo tinha uma configuração social, política e econômica muito diferente da que vivemos hoje. Mas existe uma similaridade que une tudo, independente do espaço em que as coisas ocorreram: os seres humanos. Pelo menos na essência de nascimento, sem entrar no mérito de atitudes tomadas no decorrer de suas vidas, apenas como ponto de partida pela lei da origem da vida.

Fui orientado desde muito cedo a sempre ter disposição para aprender as coisas, e isso logo passou a ser natural em meus pensamentos, o saber mais e mais cria oportunidades de transformação para as mudanças necessárias na busca incessante pelo convívio justo e harmonioso com meus semelhantes. Sinto em mim uma empatia latente pelos que padecem, mas o meu alcance de assimilação jamais se avizinhará com aqueles que sofreram os piores horrores em vida que um ser humano já experimentou. Contextualizando, estou me referindo a quem viveu, conviveu, respirou, chorou, sofreu e caiu em guerras.

Nesse cenário, ainda enojado pelos sórdidos diálogos trazidos no filme “A Conferência”, produzido na Alemanha e lançado em 2022, senti urgência em colocar em palavras escritas toda a minha indignação e repulsa com ilações repugnantes feitas contra o povo judeu. Novamente movido por um sentimento de curiosidade, descobri que existe um documentário alemão que aborda a mesmo tema, de 1984, talvez a primeira grande referência no assunto em termos cinematográficos, além do filme “Conspiração”, de 2001, que igualmente joga luz sobre um momento perigosíssimo para o destino da humanidade.

O dia 20 de janeiro de 1942 foi marcado por um dos momentos mais retrógrados desde o surgimento do planeta Terra e da notícia da existência de formas de vida humana. Sem qualquer sinal de exagero na colocação anterior, a materialização da minha perplexidade ocorreu na reunião marcada no subúrbio de Wannsee, sudoeste de Berlim (capital da Alemanha). Conhecida como “A Conferência de Wannsee”, o evento foi comandando pelo general da SS Reinhard Heydrich (1904-1942), e contou com a presença de 14 autoridades da alta cúpula do Governo da Alemanha Nazista (Secretários de Estado) e integrantes do Partido Nazista, mais conhecidas como SS (organizações paramilitares).

O tema central da reunião que durou cerca de 90 minutos foi a “Solução Final para a Questão Judaica na Europa”. Em outras palavras os detalhes logísticos para o completo extermínio dos judeus, com a ideia de reorganização da Europa a partir de uma nova colonização mundial liderada pela raça ariana (ideia de pureza criada pelos nazistas na sua figura maior – Adolf Hitler). Os debates foram seguidos de risadas debochadas, racistas, antissemitas e de toda ordem preconceituosa e desumana possível. Naquele salão foram desencadeados os piores sentimentos (se é que se posse qualificar dessa forma) sobre um semelhante humano.

A história desenvolvida para as telas é construída a partir da obtenção dos autos da conferência, mas os fatos são todos efetivos e reais, cuja comprovação não tardou a ser colocada em prática, com os desdobramentos que ocorreram após aquele evento. O diálogo, ainda que fictício, é praticamente indiscutível de ser contestado, pois o que se viu dali por diante deixa margem para ser pior do que foi apresentado no filme. Os judeus e grupos considerados “inferiores” são tratados como mercadorias, sem qualquer escrúpulo de consciência, sendo alvos constantes de piadas e termos pejorativos do tipo “parasitas” e outras menções depreciativas. Cada representante da reunião tem uma preocupação particular com o território que administra, relevando à condição do judeu à algo desprovido de qualquer importância, exceto pelos bens materiais apreendidos no ato das prisões motivados pelos rituais nazistas de segregação.

Outro ponto discutido foi a questão dos “meio-judeus”, aqueles que possuem sangue alemão fruto da relação matrimonial entre alemães puros com pessoas de origem judia. Opiniões de toda sorte, desde os radicais que externaram a vontade de exterminar todos, em favor do rápido processo de arianização do povo alemão, confrontada por posições “moderadas” (mas não contrárias), como, por exemplo, estabelecer que os idosos acima de 65 anos sejam instalados em campos de concentração específicos e assim terem o destino natural selado e erradicado para sempre. Dos 11 milhões de judeus residentes na Europa, quantidade estimada àquela altura, sabemos que os nazistas conseguiram assassinar com o Holocausto um total de 6 milhões de vidas.

O descompromisso com a própria história alemã recente é de uma negligência moral de cair não só o queixo, mas qualquer tentativa de tentar saber de onde surgiu o sentimento encolerizado pelo povo judeu. Judeus que lutaram ao lado dos alemães na Grande Guerra (1914-1918) foram descartados e varridos como poeira cósmica, a desfaçatez dos presentes naquela reunião somada à completa e acabada falta de empatia revelaram um veneno moral de proporções inexplicáveis. E a cada concordância coletiva, um “salve” com uma sequência rápida de socos na mesa, em tom de assertividade da loucura mental instalada naquele ambiente contaminado por mentes doentias.

Dessa forma, encerro por hora as minhas considerações acerca desse filme, sem deixar de manter a ininterrupta missão de vigilância e também de seguir na complexa trajetória das pesquisas visando o melhor entendimento das ações humanas do passado, presente e até mesmo do futuro (ainda que isso seja somente um exercício de alcance de estimativas). A tarefa não é fácil, mas é o único caminho contributivo que tenho, para que tentativas de ações minimamente parecidas com as que foram conduzidas na Segunda Guerra Mundial sejam evitadas.

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Dados técnicos:

Nome original do filme: Die Wannseekonferenz.

Direção: Matti Geschonneck.

Roteiro: Magnus Vattrodt e Paul Mommertz.

Duração: 108 minutos (com abertura e créditos finais).

Procedência: Alemanha.

Ano de lançamento: 2021.

Disponível: Prime Video e Looke (ambos serviços pagos de streaming).