Mostrando postagens com marcador Max. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Max. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de dezembro de 2024

Medo (2023)



Por Daniel Gonçalves

Terminei de assistir ao filme “Medo” com a empolgação reduzida em relação à expectativa criada pelo meu imaginário. Confesso que fiquei um tanto consternado por não ter experimentado o impacto que parecia prometido. A palavra “medo” tem um poder quase universal, tocando a essência do ser humano e refletindo nossa própria humanidade. Sentir medo é natural, é um mecanismo de defesa que nos previne de diversas situações, mas também atua contra nós, afetando nossas ações e decisões em quase todos os aspectos da vida. O filme, por sua vez, se mostra errático em vários momentos, ao misturar elementos bíblicos com a história das bruxas do século XVII.

A história está centrada em traumas do passado dos personagens, que acaba sendo revelado de bandeja para o telespectador logo no início, em uma roda de fogueira (noturna, é claro), onde cada um expõe o que mais perturba desde sempre em seus íntimos. Pessoas passando por problemas profissionais e psicológicos, impulsionado por uma grande pandemia viral (foi gravado na época da pandemia global da COVID-19), em que um deles tem a brilhante ideia de convidar a todos a passar um final de semana de reclusão numa grande mansão no meio do nada. Construção antiga, que foi restaurada após um grande incêndio que destruiu o prédio original. E será nesse casarão de veraneio que um espírito maligno precisa se alimentar para continuar assombrando o espaço.

A “dona” da pensão é uma velha senhora que mais parece a Bruxa do 71 (não sei como tive coragem de trazer Chaves para a conversa – risos), que no ato de boas-vindas fez questão de fotografar o grupo de turistas para fazer valer a tradição do lugar. Foto instantânea registrada por uma câmera polaroid descolada, gostei desse recurso tecnológico usado pela anfitriã. E outra coisa que mostra o avanço temporal do lugar é o ótimo sinal de Wi-Fi (os espíritos medievais mostrando que não ficam pra trás!). Mas antes de sair de cena, a velha senhora presenteia a galera com uma garrafa de vinho, presente aceito de muito bom grado. A partir desse momento alguns fatos isolados começam a acontecer, bem de leve, mas que começa a levantar as primeiras suspeitas do lugar.

Os personagens começam a confrontar seus medos, sendo que ninguém aparenta perder o controle das ações, exceto quando são pegos desprevenidos, em sonhos (ou pesadelos), por exemplo. A vigilância pessoal começa a ponto de todos serem ludibriados por um medo em comum: da pandemia que assola o planeta. Todos são convencidos por uma notícia na TV de que um poderoso vírus surgiu e a transmissão se dá por meio do ar, ou seja, são obrigados a ficar trancafiados no casarão. Esse foi o “pulo do gato” do filme, um gatilho coletivo que encurralou todos, sem exceção. E a medida que o grupo começa a explorar a casa, vão descobrindo coisas bizarras e desconexas, o que nos permite a divagar sobre realidade e imaginação. Bom, posso dizer que agora o filme de fato “começou”.

Uma das personagens toma a difícil decisão de sair do casarão para encontrar com seu filho (escolha acertada – pequeno spoiler), superando o medo em comum que envolve o grupo. A partir desse momento ladeira abaixo para todos que decidiram permanecer nas dependências daquela mansão. A casa revela ser uma espécie de organismo vivo, ainda que de relance por meio de sombras, maçanetas “nervosas”, goteiras surgidas de repente, mudanças na arte de quadros na parede, entre outras esquisitices, que faz cada um sucumbir em paranoias, resultando em automutilações forjadas a partir da crença em seus medos. Demorou um pouco para eles entenderem que estavam sendo caçados por um espírito faminto.

É nesse ponto que a história das bruxas entra em cena, mas, para minha surpresa, foi mal explorada. A relação entre o baú de fotografias encontrado em um dos grandes porões do local e os demais objetos descobertos – todos supostamente ligados a um culto secreto que venerava energias negativas, sustentando a alta densidade daquele ambiente – não ficou clara. Além disso, uma passagem bíblica recitada em voz alta serve para materializar a “água benta”, que exorciza o espírito maligno que ameaça devorar a alma de todos os presentes. No entanto, essa solução careceu de elementos que realmente me convencessem. Esse processo, aliado à falta de coragem, sugere que o verdadeiro antídoto para os obstáculos enfrentados pelos personagens é esvaziar a mente dos pensamentos que alimentam o medo pessoal. Isso enfraquece o poder do espírito maligno e devolve a sanidade, restaurando o autocontrole.

Um terror psicológico que se aproveita de fraquezas mal resolvidas na cabeça das pessoas, assumindo o controle das ações delas, muito para promover uma confusão emocional que pode levar a consequências irreversíveis, e não estou falando somente do pior resultado, identificado no óbito, mas também de traumas permanentes que pode afetar uma vida inteira. Eu entendi a proposta do filme, só não fiquei confortável com a areia movediça teatral dos primeiros quarenta minutos, uma espécie de “aquecimento” desnecessário, que desidratou o meu interesse em vários momentos. A foto do grupo, registrada pela polaroid, recuperada em certo momento e que mostrava os personagens ceifados com um borrão foi o clichê mais barato que eu vi em toda trama, superou até o vinho barato de 1938 que a galera tomou pensando que era do garbo de um D.V. Catena (risos).

O filme “Medo” está disponível no serviço de streaming MAX e tem a classificação indicativa não recomendável para menores de 12 anos.

_________________________________________________

Dados técnicos:

Nome original do filme: Fear.

Direção: Deon Taylor.

Roteiro: Deon Taylor e John Ferry.

Duração: 99 minutos (com abertura e créditos finais).

Procedência: Estados Unidos da América.

Ano de lançamento: 2023.

Disponível: MAX.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Armadilha (2024)



Por Daniel Gonçalves


Quando eu penso em escrever sobre um filme ou um álbum de rock, dificilmente eu planejo com antecedência as palavras que usarei. É bem provável que a energia do momento será a grande responsável pela minha linha de raciocínio. Isso é bom para o texto sair mais leve, sem pressão por resultado e assim manter uma aura de espontaneidade. Curioso mesmo é a minha disposição em escrever sobre filmes, deixando os bons álbuns do universo rock ao reduzido comentário de rodapé de postagens curtas (limitadas por caracteres) no Instagram. Quem sabe um CD na próxima conversa?!

O filme que venho rascunhar é daqueles que parte da crítica especializada adora descer a lenha por não ter correspondido à 7ª Arte de suas expectativas. Quando vi o título “Armadilha”, logo pensei no longa de 1999, com Sean Connery e Catherine Zeta-Jones, mas a ideia dissipou-se no mesmo minuto. A produção fresquinha lançada em 2024 tem a assinatura de roteiro e direção por nada menos que M. Night Shyamalan, que conduziu ótimas produções nos últimos 25 anos. E é aí que começa a confusão por parte de muitos, no quesito “proposta de entretenimento”. Eu me incluo nessa galera, já que nunca fui lá de gravar nomes de diretores e outros que tais de ordem de produção e etc.

O filme começa com Cooper (Josh Hartnett) levando sua filha adolescente Riley (Ariel Donoghue) a um mega show pop previsto para ocorrer na cidade. Trazendo para a realidade, o show é equivalente ao que seria uma apresentação da “Katy Perry”, com uma legião de fãs enlouquecida pela artista. O local do evento é cercado por um batalhão de policiais, o que já desperta um sinalzinho de alerta no cérebro de quem está prestando atenção na história. Dentro do show, outra quantidade incomum de seguranças, mas ninguém ali está se importando com esse fato, exceto pelo aparente desconforto apresentado por Cooper, pai afetuoso que acompanha a filha nessa empreitada pop.

O show começa e muita pirotecnia envolve completamente a atenção das crianças e adolescentes ali presentes, enquanto que o nosso protagonista fica inquieto olhando para os lados buscando algum ponto em que não tem policiais de vigília (impossível essa observação não ser um sinal importante daqui para a frente). E a filha só curtindo, praticamente hipnotizada pela atmosfera. Durante o primeiro intervalo (sim, houve váriooooos intervalos), eles “passeiam” pela área comum do evento, e por acaso Cooper puxa conversa com um vendedor de camisetas da estrela da festa “Lady Raven”, interpretada pela Saleka Shyamalan (pura coincidência familiar em relação ao dono do filme – risos). E mais imperceptível ainda a quantidade de músicas da jovem cantora postas quase que na íntegra (tá bom, ela é filha do chefe – risos).

Avançando algumas “casas” no tabuleiro, graças ao green card do diretor, que facilita a vida do protagonista e também de quem está assistindo, e pela informação do nosso querido vendedor tagarela, é possível saber que o show é um grande plano engendrado pelo FBI para prender o famoso assassino conhecido pelo nome de “Açougueiro”, serial killer que aterroriza a região há tempos. Pelo fato do diretor entregar de bandeja algumas informações logo no início, talvez seja isso que deixou os especialistas youtubenses irados! Mas eu gostei, nem todo filme precisa ser uma fortaleza de enigmas que só se revelam na última cena.

Daí por diante, só pastelaria ao melhor óleo fervente, onde alguns impasses são resolvidos prontamente pelo diretor e também ator (sim, o dono faz ponta e “ponte” no show no papel de tio da Lady Raven). Sem dar maiores spoilers, ainda que alguns sejam inevitáveis, uma sequência maluca ocorre depois do show, com reviravoltas interessantes, algumas óbvias, mas tudo pensado para ser dessa forma, em nenhum momento percebi a intenção de fazer o telespectador de idiota. No final das contas, o spoiler fornecido gratuitamente merece ser criticado? Não seria criticado de qualquer forma se a descoberta ocorresse pelo “pseudo-youtuber” no caso de discordar da forma? Difícil agradar esse povo, hein?!

Somente eu que notei um filme com suspense, comédia, drama, aventura e terror psicológico ao mesmo tempo? Aliás, fico me perguntando se eu sou um dos poucos que não caiu na “armadilha” (pegaram a referência?!) de achar que o filme é ruim somente pelo fato de entregar uma quantidade acima da média de informações privilegiadas acerca das soluções de conflitos. Eu não reclamei em nenhum momento, já que nem sempre visto a capa do Sherlock Holmes e saio por aí decifrando crimes com minha lupa e cachimbo Peterson (fazendo jabá grátis - risos). Tem dia que estou mais para Garfield, em que a melhor coisa que faço é deitar e relaxar diante de uma produção leve e despretensiosa.

E só pra lembrar, o diretor M. Night Shyamalan assina produções como “O Sexto Sentido” (1999) e “Sinais” (2002), para ficar só nesses.

_____________________________________

Dados técnicos:

Nome original do filme: Trap.

Direção: M. Night Shyamalan.

Roteiro: M. Night Shyamalan.

Duração: 105 minutos (com abertura e créditos finais).

Procedência: EUA.

Ano de lançamento: 2024.

Disponível: Max (serviço pago de streaming).