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domingo, 27 de abril de 2025

Jacob Tyler (2024)

Para falar sobre um filme europeu, temos que ter em mente que a abordagem narrativa dos diálogos e até mesmo na condução das cenas é muito diferente do que estamos acostumados em relação aos filmes norte-americanos. Dito isso, acabei de assistir a película “Jacob Tyler”, lançado em 2024, sendo produzido, dirigido e estrelado no papel principal por Mitchell James Ronald, jovem britânico de 28 anos de idade e que já apresenta bons traços de habilidade em criar enredos complexos. É importante destacar que esse foi o primeiro filme produzido por ele, e logo de cara uma produção com mais de 2 horas de duração, uma aposta alta que, independente do resultado, merece ser enaltecida pela coragem.

A história começa com um rápido feedback, no qual o protagonista, vivido na pele de Jacob Tyler (Mitchell James Ronald), é espancado por um grupo de jovens por um motivo não revelado, mas que já expõe desde o início um problema crônico de violência que ocorre no mundo inteiro. Depois disso, é mostrado várias cenas propositalmente malfeitas de vídeos amadores publicados em redes sociais retratando indivíduos usando máscaras de palhaço no cometimento de atos de violência contra pessoas totalmente indefesas (e ainda que alguma forma de resistência fosse apresentada pelas vítimas, só o vandalismo por si só já definia a covardia mostrada em tela). Para circundar o espectro dramático, as cenas são tratadas com pouca luminosidade e muitas sombras, outro obstáculo claustrofóbico para os potenciais alvos.

O protagonista retorna do cumprimento obrigatório do Exército e percebe que a vida na pequena cidade de Calder (espero que seja realmente o nome fictício desse lugar – por favor responsabilizem o site Filmow pela informação – risos) prosseguiu sem maiores acontecimentos. Mas essa cortina branca logo se empalidece com a atmosfera estranha percebida em pequenos acontecimentos, como um assalto em plena luz do dia, em que os amigos de Jacob fazem vista grossa para a vítima mulher, enquanto que Mitchell intervém e consegue restabelecer a ordem. Aquilo já coloca uma “pulga atrás da orelha” do que realmente estava acontecendo naquela cidade, aparentemente calma, mas cheia de segredos adormecidos. Jacob se estabelece em sua casa junto com a irmã Beth Tyler (Keryn Matthew), onde fica evidenciado num rápido diálogo que seus pais faleceram recentemente.

Após essa introdução que consumiu quase 15 minutos de tela, uma festa surpresa para celebrar o retorno de Jacob é organizada pelos seus amigos dos tempos ginasiais, onde vários personagens são apresentados na trama, alguns com boa espontaneidade, outros mais introvertidos dentro de atuações básicas e robóticas. As construções dos diálogos foram um pouco confusas, ainda que eu tenha conseguido entender os arcos não resolvidos ou pendentes nas relações, principalmente as paixonites retraídas entre os eventuais casais. Na hora eu pensei: coisas da idade! A “saída à francesa” de Jason (Cameron Gow) foi percebida lá pelas tantas e após Henry (Yannik Borzynski) telefonar para o amigo, confirma o fato. Jason está caminhando numa estrada em completa penumbra e percebe que está sendo seguido por alguns “vultos”. Ao registrar uma foto com flash para poder identificar melhor, descobre que três indivíduos usando máscara de palhaço estão no seu encalço, momento em que ele começa a correr e adentra um matagal mais escuro ainda (nada inteligente da parte dele!).

Os detetives Abrams (Ibrahim Bakhait) e Fazier (Rohanne Woods) são encarregados do caso e logo as buscas são iniciadas. Só achei estranho a polícia não seguir o prazo de 24 horas para efetivar um caso de desaparecimento e a partir disso iniciar esse procedimento operacional (não sei se no Reino Unido a lei é diferente). Jason é milagrosamente encontrado vivo, desacordado na mata, todo machucado, resultado nítido de um espancamento coletivo. Enquanto Abrams é retratado como um policial com mais experiência e lida com problemas particulares, a detetive Fazier é uma novata e que num primeiro momento está mais preocupada com a pronúncia correta do seu nome. Não gostei muito dos estereótipos de ambos, a impressão que eu tive é que eles estavam muito retidos a um roteiro programado, mas isso foi apenas um incômodo passageiro.

A principal informação da história enfim foi escancarada diante de Jacob, ao saber que uma gangue de indivíduos usando máscaras de palhaços tem causado um inferno aos moradores locais. E o objetivo da gangue é o tráfico de drogas, por meio do envolvimento de intermediários (muitos deles metidos nesse meio devido a problemas financeiros). E os intermediários são bem próximos de Jacob, que custou a acreditar que seus amigos teriam qualquer relação com a gangue. Ocorre que Jason encontra o fim logo após sair do hospital, um personagem que foi marcado por usar uma camiseta do Iron Maiden e que pouco acrescentou à trama, somente confusão e uma atitude pouca espirituosa. Uma pessoa que é atacada por marginais mascarados, que consegue escapar vivo após ser espancado, é no mínimo pouco inteligente voltar à rotina normal e sair andando à noite pelas ruas como se nada tivesse acontecido, não?! Pois bem, ele pagou pra ver e isso custou caro!

A partir daí, o espírito corajoso de Jacob, transformado após uma importante vivência no Exército, resolve fazer justiça com as próprias mãos, saindo à noite, todo encapuzado e com uma máscara dissimulada no rosto. É aí que identifiquei falhas de continuidade em certas cenas, além do descaso policial em fazer rondas nas ruas, além de toda uma “bolha” colocada propositalmente nas cenas para pavimentar o sucesso do protagonista. Ainda que ele tenha se envolvido em brigas corpo a corpo com um dos palhaços, é nítido que a cidade opera por “controle remoto”, pois parece que se “congela” tudo para que o protagonista consiga lidar com essa célula da gangue. Outra personagem bastante questionável foi a Rachel, interpretada pela atriz Abby Fisher, que no passado foi a namorada (ou quase) de Jacob. Intervenções bastante monótonas, com um roteiro decorado, apesar do esforço da personagem em ser mais incisiva. Ela queria o bem do rapaz, apesar de não mover um palmo do metro quadrado a que foi destinada a atuar.

Gangue dos Palhaços
Gangue dos Palhaços

Não se enganem com a minha disposição com o filme até aqui, estou gostando, pois a empatia que eu criei foi o suficiente para adentrar à aquele universo de poucas respostas e muita penumbra. Enquanto a gangue era sabida do conhecimento de todos, a inoperância do distrito policial me deixava constrangido, não era possível que uma mísera operação não era montada para tentar interceptar contatos diretos e indiretos, com a finalidade de desmontar o tráfico. Mas tudo bem, a proposta do enredo era enaltecer a indignação do Jacob, que tentava entender o que estava acontecendo desde sua partida para o Exército. Outro amigo de Jacob que estava envolvido com o tráfico, Dominic (Reece Young) foi esfaqueado pelos próprios comparsas que viram nele um alvo identificado na gangue mascarada e que poderia trazer problemas futuros.

O filme poderia ser encurtado? Sim, mas eu estava curioso e com boas expectativas para seguir o raciocínio de seu idealizador, uma vez que derrubar uma organização criminosa, independente do tamanho dela, requer muito mais que apenas dois punhos cerrados. O policial Abrams protagonizou uma cena bisonha, quando interrogou o dono de uma suspeita mercearia, ao sair do local, resolveu investigar clandestinamente e ao ser surpreendido pelo proprietário, foi espancado e pediu clemência para não morrer ali. Foi um momento degradante, apesar que a “fácil” cooperação com o protagonista que havia arquitetado um plano para surpreender e prender a gangue tenha sido a famosa “manobra” de enredo, foi pior ainda. E quem seria o palhaço infiltrado (ou ela) que apareceu sorrateiramente na casa de Sarah (Sarah Black)? Propósito somente em aterrorizá-la? Ou têm mais coisas obscuras nessa investida misteriosa?

Ao final, todos os membros (será mesmo?) reunidos numa área de matas, onde o dia e a noite celebraram uma união sem noivado, onde o líder da gangue fora finalmente revelado. Um tal de Gaz (David McCallum), um ser errático desde os tempos adolescentes, que praticava bullying de todas as formas no Jacob e nos demais envolvidos desde os tempos de escola. Ocorre que ele construiu uma sofisticada rede de tráfico de drogas, arregimentando desesperados por dinheiro e outros que possuíam algum “podre” do passado que, caso fosse revelado, arruinaria a vida da pessoa para sempre. Mas Jacob teve uma ideia interessante e astuta, porém, vou parando por aqui, terão que assistir para saber o que aconteceu. Sobre continuidade, ainda que o filme seja o embrião de um diretor que acabou de debutar no universo cinematográfico, estou curioso para saber como a vida de Jacob e seus amigos seguiram após os fatos trazidos neste artigo.

Não sou muito adepto a notas, mas penso que o diretor poderia criar um universo pregresso um pouco melhor para os personagens secundários, já que todos eles levam a ROMA (ops, a Jacob!!!). O filme é extenso e ao mesmo deu pouca profundidade aos personagens, não ficou muito claro a relação outrora de Jacob e Rachel, uma vez que houve pouco contato que levassem a uma intimidade entre eles (não falo de relações sexuais explícitas, mas sim de diálogo). Outro ponto a ser melhor abordado é o restaurante do tal Chad (Alan Clark), receptivo com todos, mas que não fornece nada de importante para a elucidação da gangue (inclusive reconhece que tem funcionário que ‘trabalha’ para o tráfico). No fim, não mostra a continuidade da dupla dinâmica policial, não traz uma conversa “clichê” deles sobre a grande prisão ocorrida, enfim, são lacunas que careceram de uma boa argamassa conclusiva.

O diretor Mitchell James Ronald tem pleno potencial para desenvolver boas tramas, só precisa encontrar os melhores laços para que na hora de desatá-los, seja de forma que não deixe o telespectador com mais dúvidas do que certezas. Se é um filme policial com toques de drama, ainda mais a respeito de um assunto presente na realidade cotidiana, precisa ser melhor trabalhado para que as pessoas possam vislumbrar resultados que sejam pelos caminhos legítimos das forças do Estado e não por ações isoladas calcadas em fatores casuais como sorte e oportunidade fora dos trâmites da lei, ainda que por altruísmo consolidado pelas atitudes de desejar a erradicação de células perniciosas para a harmonia do bem coletivo. Espero ver esse diretor em ação mais vezes, pois provou que merece oportunidades para construir coisas maiores! Falam que histórias por mais de 2 horas são arrastadas, mas quem diz isso está desacostumado com as produções britânicas, provavelmente não conhecem a belíssima (e longa) série policial VERA, que traz episódios extensos!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Pearl (2022)


Por Daniel Gonçalves


Estou gostando dessa história de resenhar os filmes que assisto, claro que isso não se aplica em todos, mas reconheço uma motivação interessante para escrever os textos que levo ao ar neste espaço. A bola da vez é o filme Pearl, de nacionalidade dividida entre Estados Unidos e Canadá, lançado em 2022. Fiquei impressionado com a qualidade fotográfica da produção, tanto nos ambientes externos, quanto nos locais fechados, isso conta pontos valiosos no resultado final (para mim nota máxima nesse quesito). Conta também com uma trilha sonora bastante envolvente, que aumenta a tensão instalada naquela atmosfera fervente. Entre uma pausa e outra, péssimo hábito que tenho, descobri que esse filme pertence a um universo expandido, com mais duas produções, desenvolvidas para formar uma trilogia. Pearl é o início da história, portanto, vamos lá!

Tudo começa em 1918, ano marcado por grandes acontecimentos no mundo, onde temos os momentos finais da 1ª Guerra Mundial assolando a Europa, e a Gripe Espanhola, pandemia que ceifou milhões de vidas. Nesse cenário, uma família vive do jeito que é possível, no interior do Texas, nos Estados Unidos. Pearl (Mia Goth), sua mãe Ruth (Tandi Wright) e seu pai, interpretado pelo ator Matthew Sunderland são os personagens com mais tempo de tela e que estruturam boa parte da trama. O pai, acometido por uma doença que o paralisou por completo, vive numa cadeira de rodas em estado praticamente vegetativo. A mãe, uma religiosa fervorosa, cuida dos afazeres domésticos do rancho e vive mergulhada em uma amargura depressiva prestes a explodir em sentimentos confusos e desproporcionais. Já Pearl, uma jovem que deseja se tornar dançarina de teatro e fazer muito sucesso pelo mundo.

Pelo tamanho da casa de campo que vivem, aparentemente eles não são uma família pobre, mas a doença do pai, somada com as limitações impostas pela guerra, reduziram drasticamente a condição financeira deles. Tanto que os animais são escassos, possuem somente uma vaca leiteira, um carneiro e alguns gansos que ficam perambulando pelo local. Os poucos centavos economizados pela mãe são para comprar migalhas na cidade e remédios para o pai, o principal da lista, sulfato de morfina, para aliviar a dor física. Nesse ambiente, contaminado por uma tensão permanente, um sonho reprimido da Pearl, que utiliza a necessidade de ir à cidade para satisfazer pequenos caprichos, como por exemplo, ir ao cinema. Nele são rodados as primeiras películas, em um recinto esvaziado, muito por conta da pandemia e guerra acontecendo ao mesmo tempo (tem até o clichê de pessoas tossindo, apenas para reforçar a sensação de medo por contaminação).

Antes que eu me esqueça, Pearl é casada com um jovem idealista (e rico), Howard (Alistair Sewell), que foi voluntário a defender seu país na guerra. Ela demonstra um sentimento misto de ansiedade pelo seu retorno e ao mesmo tempo de revolta, pois queria ter ido com ele pelo simples fato de não suportar mais morar naquele rancho. Nesse momento percebemos alguns “gatilhos” sendo ativados na mente de Pearl, com pensamentos bizarros que passa bem longe dos norteadores escrúpulos de consciência. Não vou contar detalhes para evitar spoilers, mas adianto que Pearl inicia um processo perigoso de descontrole emocional, que a leva a um caminho sem volta. Delitos morais podem ser explicados (mas nunca justificados) pela opressão psicológica que sofre de sua mãe, que a desencoraja de praticamente tudo, definindo-a como uma alma condenada à viver sem grandes propósitos pessoais.

Entretanto, a mãe reconhece que Pearl possui desvios de conduta, por isso desaprova os sonhos da filha, que passa a ter um comportamento cada vez mais agressivo. Nesse ínterim, Pearl conhece um jovem que trabalha no cinema da cidade (interpretado por David Corenswet), e logo cria um laço amigável com o rapaz, mas que se torna impróprio nas cenas seguintes, por razões que ele desconhece, mas que ingenuamente acaba por encorajar Pearl a seguir com seus propósitos. Daí por diante temos sequências chocantes (diálogo verborrágico e agressões físicas) que passa muito pelo comportamento errático de Pearl, surpreendida pela mãe, que descobre mentiras contadas pela filha. De reações impulsivas e inofensivas no início, a protagonista passa a ter surtos psicóticos, com atitudes descompensadas, alterações no tom e velocidade da voz, enxergando qualquer um como inimigo e crises que só vão catapultando a imagem singela criada nas primeiras tomadas.

Quem assistir poderá pensar, num primeiro momento, que a mãe subestimou o estado psicológico de Pearl, mas eu interpreto isso como uma falta de informação do que o puro neglicenciamento com a situação. Ruth estava com o universo povoado pela ininterrupta vigília ao marido inválido na cadeira de rodas, um diálogo expressa bem esse fardo, quando ela diz que queria fazer o papel de esposa e não o de “mãe” do marido, dadas as circunstâncias que lhe foram impostas. E também estamos falando de 1918, uma época em que a tecnologia e comunicação ainda encontrava barreiras homéricas para difusão da informação (só havia o rádio e a carta). Para piorar, no meio de todo esse turbilhão de inconsequências, Pearl decide participar de um teste para dançarina organizado pela igreja da cidade, mola propulsora para mais problemas, começando pela irredutível desaprovação da mãe, que expressa argumentos duros e sem o menor sinal de empatia com a filha.

Eu ainda não assisti ao filme “X – A Marca da Morte”, lançado também em 2022, meses antes de Pearl, e que passa no ano de 1979, já com a protagonista em idade avançada. O filme termina com uma cena que lembra bastante, talvez até seja uma homenagem, provavelmente ao personagem principal do filme “O Homem que Ri”, de 1928, ainda que muita gente possa pensar que seja uma “coringada”, alusão bem definida do supervilão da DC Comics, muito mais popular no universo cinematográfico. De qualquer forma, relevo essa escorregada, já que estamos falando de uma história ambientada em 1918, tempo em que nenhum dos personagens havia sido criado. Mas entendo e estou de acordo com essa “licença poética”.

O monólogo final em que Pearl se coloca hipoteticamente diante do marido, mas que na verdade discursa o que sente e os atos cometidos para a sua cunhada (Misty, interpretada pela Emma Jenkins-Purro), é de uma atuação marcante (sem interrupções), colocou à prova o resultado de uma mente dominada por uma força inexplicável, concatenando ações com justificativas plausíveis sob sua perspectiva, tudo para ser absolvida antes mesmo de ser descoberta. Cena impactante que foi se desenrolando igual a um novelo, com gradações que foram escurecendo, se distanciando aos poucos do senso de realidade, tudo sendo conduzindo meticulosamente a uma parede intransponível. Mas não para ela, é claro! O filme é um prato cheio para psicanalistas e psicólogos, pois a história se concentra na construção de personagens perturbados por questões existenciais (e também genéticos) que desafiava os conceitos sociais e a literatura médica, sob o escopo vigente da época.

O filme “Pearl” está disponível no serviço de streaming Prime Video e tem a classificação indicativa não recomendável para menores de 16 anos.

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Dados técnicos:

Nome original do filme: Pearl.

Direção: Ti West.

Roteiro: Ti West e Mia Goth.

Duração: 102 minutos (com abertura e créditos finais).

Procedência: Estados Unidos e Canadá.

Ano de lançamento: 2022.

Disponível: Prime Video.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Ataque Alienígena (2020)


Por Daniel Gonçalves


Um filme que apresenta ambiguidade em seu tema central é no mínimo ousado. Por outro lado, a produção precisa ter uma narrativa convincente para não dispersar o telespectador, ainda que a ideia seja de outro planeta (pegaram a referência?!). O que temos aqui é “Ataque Alienígena”, lançamento de 2020 e que assisti no dia em que este texto foi ao ar, apesar que tenho que confessar que já havia assistido e que só lembrei disso após 15 minutos de tela. Mas segui em frente, a percepção “apagada” do meu gigante “cinzento” cerebral foi o principal motivo para repetir a experiência, que inescapavelmente teria um novo sabor de ineditismo.

Gosto de saber das teorias da conspiração que envolve ufologia, é um terreno bastante fértil e tudo pode se tornar uma verdade se for bem contada. Já o filme, com a seriedade britânica latente em toda a trama, não abre espaço para piadas ou qualquer outro tipo de alívio cômico. A atmosfera nevoada do princípio ao fim é uma cortina que ajuda a história ganhar um corpo resistente aos deslizes de interpretação. Na verdade, é muito difícil padronizar uma forma de comportamento de reações humanas quando a peça do outro lado é incompreensível. E os extraterrestres, desde os primórdios de suas histórias, é um prato cheio para as mais diversas teorias. Eu quero acreditar que os alienígenas existem, mas sempre me deparo com um “paredão” da falta de argumentos que sustentem minimamente essa possível existência.

Ponto positivo é o fato de não ser um filme arrastado para uma malemolência inútil, que muitas vezes leva nada a lugar algum, ao contrário, a tensão instalada é genuína e a busca por alternativas também merece o devido crédito. Tudo começa com a notícia de um suicídio em uma fazenda situada numa zona rural da Inglaterra, levando a sargento Zoe Norris (Katherine Drake) a ir ao local para investigar o caso. Chegando lá, em rápida conversa com a inconsolável viúva da vítima, presencia outro suicídio, de forma inexplicável a interlocutora resolve dar cabo à própria vida. Isso mexe com o “tico e o teco” da protagonista, que solicita apoio pelo rádio, mas sem sucesso. Aquela altura, os telefones e outras formas de comunicação já estavam em frangalhos. Apenas o rádio portátil ponto a ponto, na frequência da delegacia, ainda funcionava.

No caminho de volta ela se depara com um corpo degolado na estrada e resolve seguir um rastro de sangue. Ainda impactada pelos últimos acontecimento, entra na casa misteriosa e encontra um homem falando coisas desconexas, momento em que é confrontada pela primeira vez com um organismo vivo não identificado. Pouco depois, temos a primeira demonstração de que “estamos sendo invadidos”, uma gigante nave escura sobrevoa o nublado céu do entardecer, mostrando toda sua imponência diante da protagonista e também de nós, telespectadores. Da nave saltaram alguns robôs sem formato definido, mas nada amigáveis. Era algo como “fique para ser aniquilado” ou “corra para tentar salvar o seu pescoço”, esta última o caminho escolhido pela policial, que seguiu a toda velocidade para o lado oposto.

O segundo ato se passa em um bar, onde uma chacina já havia ocorrido. Um pequeno grupo de sobreviventes, liderado pelo outro policial da cidade, consegue se esconder das intenções hostis das máquinas vivas. Patrick (Ritchie Crane) é subordinado da sargento Norris e, por isso, aguarda dela as decisões sobre os próximos passos. O problema é que a protagonista, recém-chegada à região, vinda do Canadá por motivos pessoais, ainda não está familiarizada com o ambiente local. É interessante que os alienígenas finalmente se revelam, mas de forma fantasmagórica: figuras imponentes, com mais de 4 metros de altura, usando máscaras e vestindo capas de frei franciscano, que remetem aos tempos medievais.

Ainda sobre os seres gigantes de outro planeta, eles não dizem uma única palavra, caminham lentamente como se fosse uma alegoria carnavalesca (mas bizarra), e sua presença, mais do que qualquer outra coisa, causa pavor. O grupo, psicologicamente esfacelado pela iminência da morte, se vê em um dilema: permanecer escondido ou arriscar se mover para outro local, na tentativa de escapar de seus algozes. Encontram uma camionete e zarpam para outro lugar de “desenvolvimento” cinematográfico. A delegacia, que era para ser o bunker dos sobreviventes, acaba sendo um estorvo repleto de portas e janelas que mais deixam eles expostos do que protegidos (no filme é revelado que o local é um espaço negligenciado pelo governo). E as máquinas rapidamente chegam ao novo campo de batalha, acessando o local sem qualquer resistência.

Daí por diante é história de ficção científica para as pessoas com a “mente aberta”, que é refletida na questão da ambiguidade que levantei no início desta análise. Em nenhum momento é mostrado um ataque partindo dos alienígenas contra a vida humana. O que é mostrado nada mais é que uma retaliação justificada pelo ataque inicial feito pelos humanos, e a resposta é aplicada exemplarmente. Ocorre que a forma das intervenções se dá por meio de uma seringa aplicada no pescoço dos vitimados. Outro ponto que não mencionei é que algumas pessoas são afetadas por fortes dores de cabeça e também nos ouvidos, que chegam a sangrar. Não ficou claro o que de fato leva ao suicídio, talvez o som ensurdecedor que poderia causar algum estrago na mente dos mais suscetíveis a essa investida.

No final das contas, um filme que gostei pela honestidade em propor situações de fácil compreensão, e que deixa um importante recado sobre a ignorância, que muitas vezes leva a consequências irreparáveis. A cena no vagão de trem vira a cabeça de qualquer um do avesso e levanta muitas questões, como: “Será que os extraterrestres são realmente hostis?” ou “Eles querem destruir ou salvar o nosso planeta?”. Não consigo chegar a uma conclusão, mas o que sei, de forma pura e genuína, é que nada sei!

O filme “Ataque Alienígena” está disponível no serviço de streaming Looke e tem a classificação indicativa não recomendável para menores de 16 anos.

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Dados técnicos:

Nome original do filme: Alien Outbreak.

Direção: Neil Rowe.

Roteiro: Neil Rowe.

Duração: 84 minutos (com abertura e créditos finais).

Procedência: Reino Unido.

Ano de lançamento: 2020.

Disponível: Looke.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Show do Iron Maiden em São Paulo (2024)

Por Daniel Gonçalves

Sobram adjetivos para determinar a dimensão da experiência vivida após assistir um show do Iron Maiden. Espetacular, magistral, perfeito, avassalador, épico, maravilhoso e por aí vai, verdade é que há mais de 40 anos eles seguem dominando a cena do Heavy Metal como a referência para milhares de outras bandas. E esse filme se repetiu com vários ingredientes diferentes na noite do dia 06 de dezembro de 2024, no Allianz Parque, na cidade de São Paulo. O nome da turnê é “The Future Past” e o nosso Brasil foi escolhido para encerrar a longa estrada de shows da banda pelo planeta. Não sou jornalista e nem especialista em apontamentos com o dedo em riste para fazer uma análise minuciosa, técnica e moral a respeito de uma produção e “soltar os cachorros” aos que discordarem de mim. Ao contrário e muito pelo contrário, sou um apreciador de música e uso este espaço para boas conversas e relatar impressões pessoais.

Show com vendas praticamente esgotadas, para deixar tudo ainda melhor, a abertura ficou a cargo da extremamente competente banda de rock dinamarquesa VOLBEAT, que eu adoro. Surgida em 2001, mistura heavy metal e hard rock sem exagerar em nenhuma dessas cozinhas. Uma banda que contagia pela qualidade instrumental e também presença de palco do seu vocalista e guitarrista, Michael Poulsen, uma simpatia que merece destaque. E ele subiu ao palco vestindo uma camiseta da banda brasileira de thrash metal Sepultura, que não tenho problemas em dizer que não curto, já que o som gutural é a marca registrada deles e exatamente o oposto do que eu aprecio dentro da música. Mas a homenagem ganhou pontos junto ao público presente, em que pese a esmagadora maioria ser de fãs da donzela de ferro.

Um calor daqueles para apreciador do deserto sentir inveja, de tão árido que estava. Eu apostaria sem pensar muito em 35º graus ambiente, o que me levou diretamente ao copo de cerveja. Olha aí o tal processo de “uma coisa levando à outra”. Fiquei na Pista Premium, local mais próximo do palco e que permite uma visão privilegiada do show. Achei (sem ter base científica alguma) de que os organizadores “alargaram” um pouquinho esse espaço de excelência, muito provavelmente pelo “aperto” econômico que a nossa pátria amada enfrenta. Sempre quando alguém me pergunta de quem é a culpa, eu recorro ao saudoso Seu Madruga, que em sua melhor fase responde que a “culpa é dos energéticos” (risos). Nem sei porque cheguei nesse assunto desconexo, deve ser o meu deficit de atenção.

A banda VOLBEAT, que estava de férias desde algum mês de 2023, topou abrir as cortinas para o Iron Maiden nos shows em São Paulo. Somente em São Paulo, que honra! O quarteto que se transforma em cinco no show (já que Michael Poulsen acumula voz e guitarra) subiu ao palco pontualmente às 19h10 e tocou 12 músicas, confesso que me vi pulando em faixas como “Shotgun Blues”, “Seal the Deal” e a derradeira “Still Counting”. Baladas como “Fallen” e “For Evigt” foram bem encaixadas no setlist, essa última com direito a aparelhos móveis acesos por todo o estádio, realmente ficou muito bonito e deve ter comovido a banda. O show durou cerca de 1 hora, garanto que sairão do Brasil com novos fãs, nada como um foguete chamado Iron Maiden para alavancar outras bandas (não que eles precisassem, mas toda ajudinha sempre é bem-vinda).

O único ponto negativo do show do VOLBEAT foi o fato de terem tocado com os telões desligados, isso deixou o show bem “cru” do ponto de vista tecnológico e de acessibilidade (quem ficou na arquibancada do outro lado do estádio certamente deve ter reclamado – e com razão). Mas aí conversando com fontes próximas, fui informado que isso é uma imposição normal feita pelo Iron Maiden (eles são quem são, podem mandar e desmandar, paciência). Estava na companhia de amigos e foram unânimes em elogiar a performance dos dinamarqueses. Só para pontuar, a formação do VOLBEAT hoje é: Michael Poulsen (voz e guitarra), Jon Larsen (bateria), Kaspar Boye Larsen (baixo elétrico) e Flemming C. Lund, guitarrista de turnês, no lugar do Rob Caggiano, que infelizmente deixou a banda tempos atrás. Para mim o show foi perfeito.

Setlist do VOLBEAT

1. The Devil’s Bleeding Crown

2. Lola Montez

3. Sad Man’s Tongue (com trecho de “Ring of Fire”, de Johnny Cash)

4. A Warrior’s Call

5. Black Rose

6. Wait a Minute My Girl

7. Shotgun Blues

8. Fallen

9. Seal the Deal

10. The Devil Rages On

11. For Evigt

12. Still Counting

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Agora vou falar do show principal, o poderoso Iron Maiden, e destaco que foi a terceira vez que tive a oportunidade de vê-los pessoalmente. Nas duas anteriores havia sido no estádio do Morumbi, também em São Paulo, nos anos de 2019 e 2022, respectivamente. E como estatística barata e sem relevância alguma (a não ser para mim), foi a menor distância que a banda já esteve se tomar por base a minha residência (11,2Km – no Morumbi era mais de 20Km). Eu curti, afinal, posso dizer que a banda esteve bem pertinho da minha realidade territorial (risos). Chega de devaneios, hora de esmiuçar a minha valiosa experiência de ter testemunhando mais um espetáculo memorável. E a pontualidade britânica fez o show começar mais cedo do que o previsto, às 20h50.

A música tema de abertura foi novamente (e felizmente) a “Doctor Doctor”, clássico atemporal da banda de rock UFO. E toda vez que escuto essa música numa atmosfera como a que eu estava inserido não tem como não me arrepiar, virou um hino de entrada para uma verdadeira viagem prestes a começar. Aos fanáticos por Iron de plantão já aviso que eu não conheço a banda nos mínimos detalhes, me tornei fã mais pelo conjunto da imensa obra que os caras ergueram na História do Rock do que o inexplicável apelo emocional instantâneo que geralmente ocorre quando gostamos de algo logo de cara. E vou arrumar discórdia generalizada, já que o último álbum deles, o “Senjutsu” é para mim um bálsamo para os ouvidos. Sem precisar desmerecer ou reduzir a importância dos clássicos, que também gosto, mas sem a energia inexplicável que sinto ao escutar o último lançamento de estúdio.

A música “ Caught Somewhere in Time”, do álbum Somewhere in Time, de 1986, abriu o show de forma nostálgica e para muitos uma correção de percurso um tanto curioso, já que não era executada ao vivo desde 1987. Eu não sabia disso até pesquisar nos sites especializados. Na sequência teve “Stranger in a Strange Land”, também lado B, mais pelo tempo que ficou guardada na prateleira da banda – não era tocada desde 1999, me deixou estático, pois não queria perder uma palhetada da execução. E foi tudo tão perfeito. Belíssimo solo de guitarra, tão atual, tão presente. E o salto temporal foi direto para “The Writing on the Wall”, do álbum que tanto gosto, o Senjutsu. Dessa vez não teve cenário teatral, como em turnês anteriores, para mim ficou algo mais prático e funcional, apenas a presença indispensável do boneco gigante do Eddie, em diversas fases, do passado ao futuro.

E o show seguiu com mais duas músicas atuais, a curtinha “Days of Future Past” e a “The Time Machine”, que retoma uma extensão mais longa e que eu aprecio bastante. A linha vocal do Bruce Dickinson, ainda que não seja a que mais agrada os meus ouvidos (por questão absoluta de gosto pessoal e não por qualquer outra razão), consegue me entusiasmar pelo perfeito acabamento, que é assombroso um cara no alto dos seus 66 anos atingir notas tão complexas. O meu aplauso com o melhor vigor possível, com respeito e admiração. Passado e presente se intercalando, já que 1982 é o destino da próxima parada, com “The Prisioner”, do álbum “The Number of the Beast” (cuja famosa faixa homônima ficou de fora dessa vez). O público cativo do Iron Maiden é surreal, todos cantando, com ou sem presteza no inglês, mas é notável o que essa banda eternizou no espírito dos fãs. Detalhe para o número considerável de crianças, pelo menos na Pista Premium, isso é um ótimo sinal para o cultivo do presente.

Como eu gosto do álbum Senjutsu, e de repente voltamos ao “presente passado” com a faixa “Death of the Celts”, com um andamento lento na abertura, mas que seus 10 e tantos minutos fizeram jus a uma passagem épica. Felicidade e satisfação para entrar de corpo e alma naquela atmosfera medieval. Uma música que só é datada para o explicar o recorte histórico da narrativa, com guitarras altas tanto na base quanto no protagonismo dos belíssimos solos. Enquanto escrevo minhas memórias do show, essa faixa já foi repetida umas 3 vezes no meu streaming. Em seguida a poderosa “Can I Play With Madness”, do álbum Seventh Son of a Seventh Son, de 1988, outra daquelas pedradas rápidas e de refrão grudento. Fiquei com essa música na cabeça por toda a noite. E a “Heaven Can Wait” fez o Eddie surgir novamente, dessa vez para um intenso duelo bélico (momento do show em que o Bruce Dickinson descobre uma arma de fogo estática e um show de efeitos recai sobre o palco).

Um grande tributo ao essencial Somewhere in Time, com mais uma faixa, dessa vez a épica “Alexander the Great”, que estranhamente nunca havia sido tocada ao vivo até a presente turnê. As redes sociais entraram em polvorosa quando essa música passou a compor o setlist fixo dos shows de 2024. O público enlouqueceu já nos primeiros acordes, a volúpia por essa música era tamanha que era possível ver a reação diversa do público, entre aplausos ora sincronizados ora como reação espontânea. Momento de luzes dos aparelhos celulares ligados para ser o pano de fundo da clássica e necessariamente repetida “Fear of the Dark”, que encanta a cada nova execução, independente se isso incomoda os fãs mais raízes da banda. A inquietação de parte do exército de seguidores da Donzela de Ferro se dá mais pelo fato dessa faixa ter “furado a bolha” do que pela qualidade sonora dela em si. O undergrond talvez sinta falta dessa “exclusividade”.

A essa altura da noite, o clima na cidade enfim arrefecia para uma temperatura mais fresca, com pequenos sopros do vento. E também de certa forma um sinal de que o show se encaminhava para o final. Dito e feito, a pesada “Iron Maiden” foi o último ato antes do BIS (não chocolate, mas o plus do show em que a banda se ausenta por alguns minutos do palco antes da retomada final). No momento em que “Hell on Earth” começou a ser executada, fiquei muito surpreso por ainda ter tempo para Senjutsu no show, pelo visto a banda gosta do álbum, o que para mim só ratifica a qualidade do material. Épica que encerra o álbum mas não o show! A voz só entra após a metade do terceiro minuto, antes disso uma grandiosa introdução toda em cordas e baquetas. O público ovaciona o poder vocal do Bruce Dickinson, que extraiu um câncer na língua há quase 10 anos e ainda assim promove espetáculos memoráveis de altíssimo nível. A régua é exigente e Dickinson se mostra absolutamente à vontade para gastar a voz em TODAS as faixas. Um herói!

Para alegria geral da nação, temos a penúltima faixa, a vibrante “The Trooper”, do álbum Piece of Mind, de 1983, que chega com o “pé na porta” e tira todo mundo do chão. Sonoridade muito atual, envelheceu tão bem quanto um bom vinho. E o passado na condição de soma de experiências, boas e ruins, surge para o último ato, com “Wasterd Years”, que chancela e eterniza uma noite memorável no Allianz Parque. Aqueles riffs iniciais que são reconhecidos de bate pronto, com a voz ainda bem operística do Bruce Dickinson. E com ela o show chega ao fim. Nem preciso “quero mais”, o que foi entregue nessa noite é o que precisava para alimentar a minha alma. Satisfeito.

O texto ficou um pouco extenso, mas penso que era necessário realizar esta imersão, pois não tem como descrever em poucas linhas aquilo que foi um importante capítulo do rock e que tive a chance faraônica de prestigiar in loco. Só um detalhe técnico, probleminha que apareceu em um dos grandes telões laterais do palco, principalmente naquele em que eu estava mais próximo (esquerda), uma falha na reprodução do vídeo, o que vai deixar uma “marquinha” imperfeita nas gravações amadoras.

Setlist do IRON MAIDEN

INTRODUÇÃO: “Doctor Doctor” (UFO) + “Blade Runner” (“End Titles”) – som mecânico.

1. Caught Somewhere in Time

2. Stranger in a Strange Land

3. The Writing on the Wall

4. Days of Future Past

5. The Time Machine

6. The Prisoner

7. Death of the Celts

8. Can I Play With Madness

9. Heaven Can Wait

10. Alexander the Great

11. Fear of the Dark

12. Iron Maiden

Encore:

13. Hell on Earth

14. The Trooper

15. Wasted Years

Som mecânico: “Always Look on the Bright Side of Life” (Monty Python).

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

A Substância (2024)


Por Daniel Gonçalves


Já vou avisando que a classificação indicativa para assistir esse filme é a partir dos 18 anos. Sendo assim, afirmo com todas as letras que o que eu acabei de assistir é perturbador, repulsivo e extremamente macabro. E não parecia nada disso quando começou, já que a história se passa com rápidos saltos temporais, construídos para contextualizar a posição da protagonista, Elizabeth Sparkle, interpretada pela atriz Demi Moore. Eu quebrei a cara (força de expressão!) nos primeiros 30 minutos, quando ocorreu a primeira tentativa de assistir, e o sono dos justos me impediu de prosseguir. A retomada ocorreu mais de três dias depois e quando me vi perdido para algumas situações de cena, optei por começar do zero, tudo em nome da boa experiência empática do presente, sem fracionar as emoções.

Elizabeth Sparkle tem 50 anos e sempre levou uma vida pra lá de especial, sendo considerada uma das mulheres mais lindas de seu tempo, alvo de todos os holofotes midiáticos possíveis. E esse tempo foi passando, juntamente com a evolução e involução dos seus atributos físicos, evidenciando a polêmica que gira em torno dos padrões de beleza. Claro que a vaidade (para muitos o orgulho) tem um peso difícil de mensurar e varia de uma pessoa para outra, mas o filme escancara uma indústria de entretenimento voltada unicamente para a audiência e o investimento dos anunciantes, e por outro lado, o cabo de guerra é puxado pela protagonista que se recusa a sair de cena pelos motivos alegados pela espremedora de laranjas. A indústria precisa de um rosto jovem e atraente na tela e a Elizabeth Sparkle não atende mais a esses requisitos, segundo seu patrão.

Os ventos mudam de direção quando Elizabeth descobre que será demitida de seu programa semanal, onde apresenta aulas de ginástica coletiva e, durante as gravações as câmeras são fechadas propositalmente em movimentos sensuais, que lembra bastante a linha pavimentada em décadas passadas. A necessidade de apelação para o caminho da extravagância é encabeçada pelo chefão do canal, um sessentão tarado por fantasias toscas, que quer porque quer alguém jovem exalando adrenalina para suas intenções comerciais. E a partir daí uma avalanche de incidentes sinistros acontecem, mas nenhum deles superam o desastre emocional causado em Elizabeth após seu desligamento forçado das telinhas. A questão do etarismo é tão cristalino e pujante como as estrelas do universo.

E a partir desse redemoinho psicodélico surge toda sorte de epifanias mirabolantes que promete manter a relevância física da pessoa. Geralmente desesperada por algo instantâneo que resolva todos os problemas, acaba cedendo a inebriante tentação da promessa (ou garantia) de um corpo perfeito para a continuidade de suas ambições. E vejam só como a tecnologia contribui substancialmente para que a pessoa recorra a essas tramoias controversas: um pendrive misterioso que traz uma forma velada de persuasão, acompanhada de um número de telefone, que em poucas palavras indica um endereço mais suspeito ainda, ou seja, o desespero leva à loucura desenfreada! E a protagonista, que se considera fora dos padrões aceitos por uma sociedade consumista, além do olhar julgador das pessoas, é facilmente conduzida para a grande armadilha feita pelo lobo!

A mesma pessoa se divide em duas formas, a matriz e uma versão jovem de si mesma, mais precisamente no frescor da idade adulta, com a clara intenção de fazer de sua vida um looping infinito naquele recorte de tempo. Regra basilar é que as duas não podem viver ao mesmo tempo, uma drena a energia da outra por 7 dias, uma espécie de retroalimentação, condição do equilíbrio estipulado pelo regulamento. A opinião de terceiros passa a ser a mola propulsora de suas motivações, a protagonista segue as regras impostas pela fórmula mágica somente nos primeiros dias, e a tentação de manter-se jovem grita em seu espírito a ponto dela estender sua permanência ininterrupta no mundo, em detrimento de efeitos colaterais que acometerão sua matriz. E claro, Elizabeth (agora respondendo pelo nome de Sue) rapidamente conquista o chefão do canal que a despediu na versão +50 de si mesma, sendo hipnotizado por essa figura que arrasa quarteirão por onde passa devido a sua exuberante beleza. E o vai de lá e de cá com agulhas e seringas é assustador, nem preciso dizer o risco absurdo de contaminação que o ambiente permitia, mas nada comparado às consequências alucinógenas aos envolvidos.

As coisas começam a sair do eixo justamente por esse descumprimento básico de manter o equilíbrio a cada 7 dias, ser jovem novamente leva Elizabeth (Sue) a ter experiências mundanas de forma intensa e também seguir cada vez mais em alta nos números do canal que atua. Passa a participar de outros programas televisivos e é escalada para apresentar o especial de final de ano da emissora, considerado o mais rentável da empresa para a qual trabalha. Nisso, os abusos na fórmula mágica a deixam viciada em frivolidades do dia a dia, está sempre acompanhada de homens em seu apartamento, é cortejada e paparicada por onde passa, enquanto que a matriz de sua forma está cada vez mais fragilizada física e emocionalmente, principalmente quando chega o momento de seu usufruto pelos 7 dias regulamentares. Prepare para ver bizarrices de diversas maneiras, aí o meu aplauso para a excelente caracterização dos efeitos visuais, ficaram horrorosamente sublimes!

Vou parando por aqui, tentei não contar spoiler de continuidade, mas algumas informações são necessárias para que esse texto tenha algum sentido. Confesso que virei a cara para algumas cenas bem impactantes e nojentas, mas me arrependi e voltei para ver com o semblante de quem encara algo repugnante com a mão prendendo a respiração do nariz. E claro, nem passou pela minha cabeça comer alguma coisa enquanto assistia. Fato é que o tempo passa para todos, mas entendo que todos tem o direito de fazer suas escolhas e reitero minha compreensão do direito universal de cada um tomar suas próprias decisões (estou me referindo especificamente ao caso da personagem central do filme). No entanto, é factível que busquemos os nossos ideais sem perder o controle sobre certas atitudes que podem ser irreversíveis, principalmente às quais envolve egoísmo, vaidade, ganância e outros podres que se disfarçam para nos enganar e sabotar nossas tentativas de ter uma vida honesta e fiel a princípios morais e éticos da boa convivência entre nossos pares ao longo de nossa existência.

O filme “A Substância” está disponível no serviço de streaming Mubi, sendo necessário uma assinatura paga para conferir esse ótimo longa estrelado pela Demi Moore.

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Dados técnicos:

Nome original do filme: The Substance.

Direção: Coralie Fargeat.

Roteiro: Coralie Fargeat.

Duração: 140 minutos (com abertura e créditos finais).

Procedência: EUA, França, Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.

Ano de lançamento: 2024.

Disponível: Mubi (serviço pago de streaming disponibilizado dentro da plataforma Prime Video).




segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Armadilha (2024)



Por Daniel Gonçalves


Quando eu penso em escrever sobre um filme ou um álbum de rock, dificilmente eu planejo com antecedência as palavras que usarei. É bem provável que a energia do momento será a grande responsável pela minha linha de raciocínio. Isso é bom para o texto sair mais leve, sem pressão por resultado e assim manter uma aura de espontaneidade. Curioso mesmo é a minha disposição em escrever sobre filmes, deixando os bons álbuns do universo rock ao reduzido comentário de rodapé de postagens curtas (limitadas por caracteres) no Instagram. Quem sabe um CD na próxima conversa?!

O filme que venho rascunhar é daqueles que parte da crítica especializada adora descer a lenha por não ter correspondido à 7ª Arte de suas expectativas. Quando vi o título “Armadilha”, logo pensei no longa de 1999, com Sean Connery e Catherine Zeta-Jones, mas a ideia dissipou-se no mesmo minuto. A produção fresquinha lançada em 2024 tem a assinatura de roteiro e direção por nada menos que M. Night Shyamalan, que conduziu ótimas produções nos últimos 25 anos. E é aí que começa a confusão por parte de muitos, no quesito “proposta de entretenimento”. Eu me incluo nessa galera, já que nunca fui lá de gravar nomes de diretores e outros que tais de ordem de produção e etc.

O filme começa com Cooper (Josh Hartnett) levando sua filha adolescente Riley (Ariel Donoghue) a um mega show pop previsto para ocorrer na cidade. Trazendo para a realidade, o show é equivalente ao que seria uma apresentação da “Katy Perry”, com uma legião de fãs enlouquecida pela artista. O local do evento é cercado por um batalhão de policiais, o que já desperta um sinalzinho de alerta no cérebro de quem está prestando atenção na história. Dentro do show, outra quantidade incomum de seguranças, mas ninguém ali está se importando com esse fato, exceto pelo aparente desconforto apresentado por Cooper, pai afetuoso que acompanha a filha nessa empreitada pop.

O show começa e muita pirotecnia envolve completamente a atenção das crianças e adolescentes ali presentes, enquanto que o nosso protagonista fica inquieto olhando para os lados buscando algum ponto em que não tem policiais de vigília (impossível essa observação não ser um sinal importante daqui para a frente). E a filha só curtindo, praticamente hipnotizada pela atmosfera. Durante o primeiro intervalo (sim, houve váriooooos intervalos), eles “passeiam” pela área comum do evento, e por acaso Cooper puxa conversa com um vendedor de camisetas da estrela da festa “Lady Raven”, interpretada pela Saleka Shyamalan (pura coincidência familiar em relação ao dono do filme – risos). E mais imperceptível ainda a quantidade de músicas da jovem cantora postas quase que na íntegra (tá bom, ela é filha do chefe – risos).

Avançando algumas “casas” no tabuleiro, graças ao green card do diretor, que facilita a vida do protagonista e também de quem está assistindo, e pela informação do nosso querido vendedor tagarela, é possível saber que o show é um grande plano engendrado pelo FBI para prender o famoso assassino conhecido pelo nome de “Açougueiro”, serial killer que aterroriza a região há tempos. Pelo fato do diretor entregar de bandeja algumas informações logo no início, talvez seja isso que deixou os especialistas youtubenses irados! Mas eu gostei, nem todo filme precisa ser uma fortaleza de enigmas que só se revelam na última cena.

Daí por diante, só pastelaria ao melhor óleo fervente, onde alguns impasses são resolvidos prontamente pelo diretor e também ator (sim, o dono faz ponta e “ponte” no show no papel de tio da Lady Raven). Sem dar maiores spoilers, ainda que alguns sejam inevitáveis, uma sequência maluca ocorre depois do show, com reviravoltas interessantes, algumas óbvias, mas tudo pensado para ser dessa forma, em nenhum momento percebi a intenção de fazer o telespectador de idiota. No final das contas, o spoiler fornecido gratuitamente merece ser criticado? Não seria criticado de qualquer forma se a descoberta ocorresse pelo “pseudo-youtuber” no caso de discordar da forma? Difícil agradar esse povo, hein?!

Somente eu que notei um filme com suspense, comédia, drama, aventura e terror psicológico ao mesmo tempo? Aliás, fico me perguntando se eu sou um dos poucos que não caiu na “armadilha” (pegaram a referência?!) de achar que o filme é ruim somente pelo fato de entregar uma quantidade acima da média de informações privilegiadas acerca das soluções de conflitos. Eu não reclamei em nenhum momento, já que nem sempre visto a capa do Sherlock Holmes e saio por aí decifrando crimes com minha lupa e cachimbo Peterson (fazendo jabá grátis - risos). Tem dia que estou mais para Garfield, em que a melhor coisa que faço é deitar e relaxar diante de uma produção leve e despretensiosa.

E só pra lembrar, o diretor M. Night Shyamalan assina produções como “O Sexto Sentido” (1999) e “Sinais” (2002), para ficar só nesses.

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Dados técnicos:

Nome original do filme: Trap.

Direção: M. Night Shyamalan.

Roteiro: M. Night Shyamalan.

Duração: 105 minutos (com abertura e créditos finais).

Procedência: EUA.

Ano de lançamento: 2024.

Disponível: Max (serviço pago de streaming).