Estamos em 2026 e o evento que vou contar aqui é a respeito de uma série lançada em 2013, que durou três temporadas e terminou em 2015. Baseada em uma história criada por Stephen King, o caminho cinematográfico diverge do enredo original em boa parte. Obtive essa informação por intermédio de pesquisas, uma vez que eu não li o livro. No Brasil recebeu o título de “O Domo”, e está disponível até o momento da publicação deste texto no serviço de streaming do Mercado Play. As propagandas são “chatinhas”, mas isso não me impediu de ter uma ótima experiência com a série.
A história é centrada na pequena cidade de Chester’s Mill, situada em algum lugar distante e pacato dos Estados Unidos. Ela não existe na realidade, mas é muito bem estruturada no universo inventivo do Stephen King. Nela temos uma agricultura pujante, criação de gado, indústria que atende às necessidades da população, rede de comércio em pleno funcionamento e uma política centralizada à base conchavos bem “amarrados” pelo então vereador “Big Jim”.
De repente, sem qualquer explicação um barulho estrondoso similar a um terremoto ocorre na cidade e em poucos segundos uma grande redoma transparente cobre Chester’s Mill por completa, cuja barreira é intransponível, protegida por uma fonte de energia desconhecida. Uma cena marcante é o acidente envolvendo um avião de pequeno porte que voava no instante do surgimento da redoma, explodindo no momento da colisão. A cena da pobre vaquinha (ou boi?) é mostrada em TODOS as revisões de episódio, mostrando a crueza da tragédia.
A partir desse momento muitas coisas mudaram, começando pela tensão nos moradores de Chester’s Mill, cada um reagindo de uma forma diferente. Pensando em ser algo passageiro, as autoridades da cidade (leiam-se políticos e policiais) trataram de tranquilizar a população e minimizar as primeiras ocorrências. Fato é que a redoma em si não era um problema incontornável nas primeiras horas, já que ainda havia um bom abastecimento de alimentos, necessidade que futuramente levaria às pessoas a uma perversão moral sem precedentes.
O Exército (sempre eles) ocuparam as saídas da cidade, por fora, cercando o perímetro e afastando os olhares curiosos (até aquele momento a redoma era vista como uma “atração cultural”). Voltando ao aspecto interpessoal, havia muitas camadas, segredos, corrupção e condutas morais reprováveis dentro de Chester’s Mill. A redoma "impôs” uma espécie de quarentena sobre pessoas que cedo ou tarde “explodiriam” pelas suas atitudes. Esse ritmo de mistério sem solução se seguiu ao longo dos treze episódios da 1ª temporada.
No momento do surgimento da redoma, havia algumas pessoas de passagem pela cidade, cujas relações se intensificariam nos episódios seguintes. Na realidade da série, apenas uma semana havia se passado, o que revela o grande número de situações decorrentes a partir daquela “prisão invisível” ao longo dos 13 episódios. Crimes com resultado morte foram aumentando à medida que a escassez de recursos e a impaciência assumia o controle das pessoas, em meio a um caos instalado e sem perspectiva de solução.
A redoma apresentava comportamentos estranhos e algumas pessoas reagiam a ela com convulsões, sendo que de alguma forma havia conexão, mas tudo muito nebuloso e sem qualquer pista do que poderia ser. Para os líderes da cidade, a explicação mais plausível era que algum experimento secreto do Governo estava em andamento. A hipótese alienígena sequer havia sido trazida à tona. Enquanto os adultos olhavam para o lado político que Chester’s Mill estava se transformando, os adolescentes tentavam entender o que estava acontecendo a respeito da redoma.
Foi aí que a parte “mística” da história começa a ganhar espaço, com a descoberta de um pequeno ovo (tamanho de um Ovo de Páscoa de 500g) que emitia luzes em seu interior. A partir desse momento, a história ganha uma nova camada, com o peso do sobrenatural exercendo uma nova influência. Para conhecer as pessoas de verdade, não basta conceder poder a elas, a soma de dificuldades potencializadas, em que umas são colocadas em dilemas éticos, morais e que a sobrevivência está em xeque, é um fator de peso para descobrir o melhor e o pior do ser humano.
A partir de um determinado momento, a redoma inicia um comportamento mais invasivo, que afeta frontalmente a vida das pessoas, provocando medidas desesperadas por parte dos seus líderes, que justificam seus erros com soluções paliativas que revelam pouca eficácia. E como explicar o surgimento de uma garota, dada como morta há 25 anos, viva num lago misterioso? Essa virada de chave é um caminho sem volta, eu não receberia com naturalidade a notícia de que essa garota está viva e simplesmente ter uma reação pouco ou zero piegas.
Pois bem, sem querer ser irônico ou sarcástico, apenas para ilustrar didaticamente o comportamento da redoma, ela passa a demonstrar reações comportamentais para os moradores da cidade! Isso mesmo, num determinado dia o tempo escurece e começa a chover um líquido vermelho (tóxico e ácido), noutro dia o frio congelante mostra o contraste do desafio anterior. E claro, tudo como parte de um plano maior que ninguém ali conseguia compreender. Ao que me parece, naquela altura livro e série já não se “conversavam” mais, mas eu não sei onde ocorreu o rompimento definitivo.
Esse miolo truncado de relações interpessoais deterioradas e uma força desconhecida já começava a dar o tom do que viria na 3ª temporada. A questão alienígena era uma teoria bem aceita pelos sobreviventes (cerca de 2 mil pessoas), enquanto o mundo externo já sabia da existência do ovo alienígena, isso graças a um monitoramento clandestino realizado por uma empresa associada ao Governo, mas com interesses próprios (estou falando de DINHEIRO!).
Não vou entrar na história das borboletas e casulos, mas fica a dica para tentarem entender o fio da meada dessa história. A verdade é que três semanas haviam se passado e a cidade de Chester’s Mill estava entregue à própria sorte, pois não devemos nos esquecer da tentativa do Exército de furar a redoma com um míssil altamente engajado na 1ª temporada. E sabemos (pelo menos temos noção) do nível de estrago que um míssil pode causar em larga escala. Chester’s Mill guarda muitos segredos e todos são revelados, seja por imposição da redoma ou mesmo pelo “big brother” instalado por fora.
E aqui vai um spoiler que realmente me deixa preocupado: a tentativa de “curar” os humanos de seus erros morais e éticos promovido pelos alienígenas nada mais que é uma atitude de sobrevivência da raça deles, já que eles vieram de um mundo distante, fugindo de algo maior que os dizimou e que o planeta Terra foi um refúgio. Isso para mim é alarmante, se estamos aqui curiosos (para não dizer desesperados) por saber de existência de vida extraterrestre, seria um caos e uma decepção tremenda saber que lá fora está pior.
Não aceito chorumelos de pessoas que não assistirão a série só porque teve gente que não gostou e tratou de deixar isso claro nas redes sociais. Não gostar é um direito plenamente válido, mas se oriente a partir de suas experiências, não tome a definição dos outros como sua verdade (puxo a orelha sim!). O Domo é uma ótima série, que abre caminhos para diversas discussões, deste e de outros mundos. De uma coisa estou convicto: não estamos sozinhos!
