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domingo, 19 de outubro de 2025

Tempos de Escuridão (2020)

Uma das coisas que mais mexem comigo em um filme é o poder de transformação que ele promove sobre meus pensamentos após assisti-lo. A somatização da reflexão, empatia, revolta e por vezes alívio diante dos desdobramentos felizmente positivos são alguns movimentos internos que me deixa impactado e até resiliente para os desafios que deparo no dia a dia. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) continua sendo um assunto bastante latente mais de 80 anos depois, com feridas abertas e cicatrizes mal curadas que assolou gerações e ainda assombra a vida de milhares de pessoas. Diante disso, inúmeras produções cinematográficas foram produzidas sobre o tema, com a tentativa de preencher esse enorme quebra-cabeças histórico.

Muitos países foram envolvidos nesse conflito, alguns declararam apoio forçado, outros mantiveram uma neutralidade que no final das contas foi insolúvel, já que a ocupação direcionava aos interesses beligerantes. A Dinamarca foi um desses países com bandeira branca, mas que se viu amordaçada por uma Alemanha opressora e cada vez mais influente na política interna do país. O filme “Tempos de Escuridão” (De forbandede år / Dinamarca / 2020) é a primeira de duas partes que mostra essa interferência que vai se formando gradativamente, com uma escalada de violência física e psicológica nos pacatos residentes do país. Tentei assistir a esse filme algumas vezes, porém, por uma questão de falta de sincronismo da legenda na transmissão do streaming do Looke, meu interesse era momentaneamente drenado.

Mas o problema foi resolvido e ao acessar o filme no catálogo, logo percebi que poderia assistir sem maiores sobressaltos. A história gira em torno do industrial Karl Skov (Jesper Christensen), dono de uma fábrica de eletrônicos, com uma produção que vai de vento em popa, sendo obrigado a mudar os rumos do seu negócio quando ocorre a invasão alemã em seu país em 1940. Num primeiro momento, questões políticas e sociais sofrem poucas interferências, mas no decorrer do tempo os invasores iniciam uma sequência de perseguições a pessoas de origem judia e à todos que se manifestam contra o regime nazista. O ponto nevrálgico a partir desse momento é a enorme discrepância de pensamentos da família de Karl, seus filhos e esposa, além dos empregados, cada qual com segredos perigosos.

O passado de Karl não é retratado, mas em 1940 temos o protagonista com uma idade beirando os 75 anos, com um filho (Michael, Gustav Dyekjær Giese), servindo às Forças Armadas do país, provavelmente do primeiro casamento. Já na segunda relação, temos inclusive a celebração do aniversário de 25 anos de matrimônio de Karl e Eva Skov (Bodil Jørgensen). Nesse contexto, os quatro filhos do casal são descritos com personalidades e interesses absolutamente diferentes. O mais velho, Aksel Skov (Mads Reuther), um jovem idealista que apoia à Resistência (une-se a clandestinos que pretendem derrubar o regime nazista por meio de atentados contra as instalações físicas do Eixo), sempre movido por ações impulsivas. O eventual apoio da Dinamarca ao regime nazista contra os comunistas da União Soviética é o primeiro desacordo entre ele e o meio-irmão Michael, já que esse último acredita que poderá servir o seu país por ideal coletivo acima de qualquer coisa.

Os outros filhos do casal são Knud Skov (Lue Dittmann Støvelbæk), um jovem músico de jazz que possui uma limitação física para andar, Helene Skov (Sara Viktoria Bjerregaard), uma jovem adolescente que logo se apaixona por um Oficial da Marinha alemã, provocando uma erupção dentro da família e o adolescente Valdemar Skov (Sylvester Byder). O bom de ser um filme longo, de aproximadamente 2 horas e meia, é que é possível aprofundarmos em vários personagens e suas motivações. Mas o que realmente atrapalha muito é a desinformação que ocorria naquela época, pois ninguém tinha a menor ideia do que estava acontecendo na Alemanha. A propaganda local só pedia para os dinamarqueses serem cordiais com a presença alemã no país, pois qualquer comportamento contrário poderia ocasionar crises institucionais.

Karl é movido pela crença de que as pessoas têm boas intenções, apesar de mostrar-se contrário à presença alemã na Dinamarca, ainda acreditava no Parlamento e que a guerra acabaria em breve. Isso o levou a quase perder a fábrica, antes disso já havia feito dezenas de demissões, para que pudesse mantê-la em funcionamento. Sempre resistente a realizar acordos comerciais com os alemães, logo é demovido dessa intenção, acaba sendo absorvido pelo sistema e celebra contratos de cooperação, mesmo sem saber ao certo para qual finalidade sua produção atenderia aos interesses alemães. Paralelo a isso, seus filhos corriam em direções opostas, um participava da guerrilha e era perseguido pela polícia local, que apesar de ainda ser gerida pela Dinamarca, a influência nazista era evidente, pois eles cumpriam diversos mandados de prisão ordenados pelo regime nazista instalado no país.

Apesar de toda desordem, Karl ainda conseguia manter um nível de vida confortável para sua família, mas a medida que o tempo passava, o que era tida como uma ocupação provisória e “pacífica” desde 1940, esse fato já não se repetia nos anos seguintes, com uma intensificação da violência e interferência direta na política e qualquer atividade comercial do país pelos alemães. A Dinamarca não era mais uma nação neutra, ao contrário, estava amordaçada e obrigada a seguir as ordens da Alemanha. Karl tentava manter a sanidade para evitar que infligissem sua família e os negócios, mas seus filhos seguiam caminhos conflituosos e destoantes, cada dia era um problema a ser administrado com a polícia local, que milagrosamente era amigável com Karl. A esposa de Karl se mostrava cada vez mais contra o regime nazista, por algumas vezes colocando essa insatisfação em evidência, gerando um clima claustrofóbico que poderia colocar a família em grande risco.

Muitas pessoas não tiveram escolhas, simplesmente foram absorvidas para aquela hecatombe de atrocidades humanas, movidas em quase todos os momentos pela falta de informação ou mesmo propagação de notícias falsas. O filme deixa isso bem claro quando Karl tranquiliza a esposa dizendo que um casal de amigos de origem judia foi deslocado para um “Campo de Trabalho”, mostrando que ninguém tinha ideia do que eram aquelas instalações de extermínio de judeus. Karl passa a ter uma breve noção das terríveis atrocidades cometidas quando Michael retorna de uma missão e no encontro o filho relata que era obrigado a fazer pessoas a cavarem a própria cova e depois atiravam em suas nucas com o “sangue dessas pessoas espirrando nele”. Foi um momento de choque traumático, ainda mais vindo de uma pessoa que ansiava em servir à pátria com ações altruístas.

Deixarei o restante da experiência a cargo de quem se interessar em assistir, mas afirmo que é um excelente filme, mostrado sob o ângulo de uma nação que nada tinha a ver com toda aquela confusão instalada na Europa na primeira metade do século passado. Essencial para que as reflexões continuem vivas e não se percam nas páginas do passado. A vigilância é imprescindível para que não deixemos essas atrocidades serem repetidas.

E mais um recado: leia livros, seja bem informado nas coisas que acredita para que possa defendê-las com argumento e sabedoria!

domingo, 27 de abril de 2025

Jacob Tyler (2024)

Para falar sobre um filme europeu, temos que ter em mente que a abordagem narrativa dos diálogos e até mesmo na condução das cenas é muito diferente do que estamos acostumados em relação aos filmes norte-americanos. Dito isso, acabei de assistir a película “Jacob Tyler”, lançado em 2024, sendo produzido, dirigido e estrelado no papel principal por Mitchell James Ronald, jovem britânico de 28 anos de idade e que já apresenta bons traços de habilidade em criar enredos complexos. É importante destacar que esse foi o primeiro filme produzido por ele, e logo de cara uma produção com mais de 2 horas de duração, uma aposta alta que, independente do resultado, merece ser enaltecida pela coragem.

A história começa com um rápido feedback, no qual o protagonista, vivido na pele de Jacob Tyler (Mitchell James Ronald), é espancado por um grupo de jovens por um motivo não revelado, mas que já expõe desde o início um problema crônico de violência que ocorre no mundo inteiro. Depois disso, é mostrado várias cenas propositalmente malfeitas de vídeos amadores publicados em redes sociais retratando indivíduos usando máscaras de palhaço no cometimento de atos de violência contra pessoas totalmente indefesas (e ainda que alguma forma de resistência fosse apresentada pelas vítimas, só o vandalismo por si só já definia a covardia mostrada em tela). Para circundar o espectro dramático, as cenas são tratadas com pouca luminosidade e muitas sombras, outro obstáculo claustrofóbico para os potenciais alvos.

O protagonista retorna do cumprimento obrigatório do Exército e percebe que a vida na pequena cidade de Calder (espero que seja realmente o nome fictício desse lugar – por favor responsabilizem o site Filmow pela informação – risos) prosseguiu sem maiores acontecimentos. Mas essa cortina branca logo se empalidece com a atmosfera estranha percebida em pequenos acontecimentos, como um assalto em plena luz do dia, em que os amigos de Jacob fazem vista grossa para a vítima mulher, enquanto que Mitchell intervém e consegue restabelecer a ordem. Aquilo já coloca uma “pulga atrás da orelha” do que realmente estava acontecendo naquela cidade, aparentemente calma, mas cheia de segredos adormecidos. Jacob se estabelece em sua casa junto com a irmã Beth Tyler (Keryn Matthew), onde fica evidenciado num rápido diálogo que seus pais faleceram recentemente.

Após essa introdução que consumiu quase 15 minutos de tela, uma festa surpresa para celebrar o retorno de Jacob é organizada pelos seus amigos dos tempos ginasiais, onde vários personagens são apresentados na trama, alguns com boa espontaneidade, outros mais introvertidos dentro de atuações básicas e robóticas. As construções dos diálogos foram um pouco confusas, ainda que eu tenha conseguido entender os arcos não resolvidos ou pendentes nas relações, principalmente as paixonites retraídas entre os eventuais casais. Na hora eu pensei: coisas da idade! A “saída à francesa” de Jason (Cameron Gow) foi percebida lá pelas tantas e após Henry (Yannik Borzynski) telefonar para o amigo, confirma o fato. Jason está caminhando numa estrada em completa penumbra e percebe que está sendo seguido por alguns “vultos”. Ao registrar uma foto com flash para poder identificar melhor, descobre que três indivíduos usando máscara de palhaço estão no seu encalço, momento em que ele começa a correr e adentra um matagal mais escuro ainda (nada inteligente da parte dele!).

Os detetives Abrams (Ibrahim Bakhait) e Fazier (Rohanne Woods) são encarregados do caso e logo as buscas são iniciadas. Só achei estranho a polícia não seguir o prazo de 24 horas para efetivar um caso de desaparecimento e a partir disso iniciar esse procedimento operacional (não sei se no Reino Unido a lei é diferente). Jason é milagrosamente encontrado vivo, desacordado na mata, todo machucado, resultado nítido de um espancamento coletivo. Enquanto Abrams é retratado como um policial com mais experiência e lida com problemas particulares, a detetive Fazier é uma novata e que num primeiro momento está mais preocupada com a pronúncia correta do seu nome. Não gostei muito dos estereótipos de ambos, a impressão que eu tive é que eles estavam muito retidos a um roteiro programado, mas isso foi apenas um incômodo passageiro.

A principal informação da história enfim foi escancarada diante de Jacob, ao saber que uma gangue de indivíduos usando máscaras de palhaços tem causado um inferno aos moradores locais. E o objetivo da gangue é o tráfico de drogas, por meio do envolvimento de intermediários (muitos deles metidos nesse meio devido a problemas financeiros). E os intermediários são bem próximos de Jacob, que custou a acreditar que seus amigos teriam qualquer relação com a gangue. Ocorre que Jason encontra o fim logo após sair do hospital, um personagem que foi marcado por usar uma camiseta do Iron Maiden e que pouco acrescentou à trama, somente confusão e uma atitude pouca espirituosa. Uma pessoa que é atacada por marginais mascarados, que consegue escapar vivo após ser espancado, é no mínimo pouco inteligente voltar à rotina normal e sair andando à noite pelas ruas como se nada tivesse acontecido, não?! Pois bem, ele pagou pra ver e isso custou caro!

A partir daí, o espírito corajoso de Jacob, transformado após uma importante vivência no Exército, resolve fazer justiça com as próprias mãos, saindo à noite, todo encapuzado e com uma máscara dissimulada no rosto. É aí que identifiquei falhas de continuidade em certas cenas, além do descaso policial em fazer rondas nas ruas, além de toda uma “bolha” colocada propositalmente nas cenas para pavimentar o sucesso do protagonista. Ainda que ele tenha se envolvido em brigas corpo a corpo com um dos palhaços, é nítido que a cidade opera por “controle remoto”, pois parece que se “congela” tudo para que o protagonista consiga lidar com essa célula da gangue. Outra personagem bastante questionável foi a Rachel, interpretada pela atriz Abby Fisher, que no passado foi a namorada (ou quase) de Jacob. Intervenções bastante monótonas, com um roteiro decorado, apesar do esforço da personagem em ser mais incisiva. Ela queria o bem do rapaz, apesar de não mover um palmo do metro quadrado a que foi destinada a atuar.

Gangue dos Palhaços
Gangue dos Palhaços

Não se enganem com a minha disposição com o filme até aqui, estou gostando, pois a empatia que eu criei foi o suficiente para adentrar à aquele universo de poucas respostas e muita penumbra. Enquanto a gangue era sabida do conhecimento de todos, a inoperância do distrito policial me deixava constrangido, não era possível que uma mísera operação não era montada para tentar interceptar contatos diretos e indiretos, com a finalidade de desmontar o tráfico. Mas tudo bem, a proposta do enredo era enaltecer a indignação do Jacob, que tentava entender o que estava acontecendo desde sua partida para o Exército. Outro amigo de Jacob que estava envolvido com o tráfico, Dominic (Reece Young) foi esfaqueado pelos próprios comparsas que viram nele um alvo identificado na gangue mascarada e que poderia trazer problemas futuros.

O filme poderia ser encurtado? Sim, mas eu estava curioso e com boas expectativas para seguir o raciocínio de seu idealizador, uma vez que derrubar uma organização criminosa, independente do tamanho dela, requer muito mais que apenas dois punhos cerrados. O policial Abrams protagonizou uma cena bisonha, quando interrogou o dono de uma suspeita mercearia, ao sair do local, resolveu investigar clandestinamente e ao ser surpreendido pelo proprietário, foi espancado e pediu clemência para não morrer ali. Foi um momento degradante, apesar que a “fácil” cooperação com o protagonista que havia arquitetado um plano para surpreender e prender a gangue tenha sido a famosa “manobra” de enredo, foi pior ainda. E quem seria o palhaço infiltrado (ou ela) que apareceu sorrateiramente na casa de Sarah (Sarah Black)? Propósito somente em aterrorizá-la? Ou têm mais coisas obscuras nessa investida misteriosa?

Ao final, todos os membros (será mesmo?) reunidos numa área de matas, onde o dia e a noite celebraram uma união sem noivado, onde o líder da gangue fora finalmente revelado. Um tal de Gaz (David McCallum), um ser errático desde os tempos adolescentes, que praticava bullying de todas as formas no Jacob e nos demais envolvidos desde os tempos de escola. Ocorre que ele construiu uma sofisticada rede de tráfico de drogas, arregimentando desesperados por dinheiro e outros que possuíam algum “podre” do passado que, caso fosse revelado, arruinaria a vida da pessoa para sempre. Mas Jacob teve uma ideia interessante e astuta, porém, vou parando por aqui, terão que assistir para saber o que aconteceu. Sobre continuidade, ainda que o filme seja o embrião de um diretor que acabou de debutar no universo cinematográfico, estou curioso para saber como a vida de Jacob e seus amigos seguiram após os fatos trazidos neste artigo.

Não sou muito adepto a notas, mas penso que o diretor poderia criar um universo pregresso um pouco melhor para os personagens secundários, já que todos eles levam a ROMA (ops, a Jacob!!!). O filme é extenso e ao mesmo deu pouca profundidade aos personagens, não ficou muito claro a relação outrora de Jacob e Rachel, uma vez que houve pouco contato que levassem a uma intimidade entre eles (não falo de relações sexuais explícitas, mas sim de diálogo). Outro ponto a ser melhor abordado é o restaurante do tal Chad (Alan Clark), receptivo com todos, mas que não fornece nada de importante para a elucidação da gangue (inclusive reconhece que tem funcionário que ‘trabalha’ para o tráfico). No fim, não mostra a continuidade da dupla dinâmica policial, não traz uma conversa “clichê” deles sobre a grande prisão ocorrida, enfim, são lacunas que careceram de uma boa argamassa conclusiva.

O diretor Mitchell James Ronald tem pleno potencial para desenvolver boas tramas, só precisa encontrar os melhores laços para que na hora de desatá-los, seja de forma que não deixe o telespectador com mais dúvidas do que certezas. Se é um filme policial com toques de drama, ainda mais a respeito de um assunto presente na realidade cotidiana, precisa ser melhor trabalhado para que as pessoas possam vislumbrar resultados que sejam pelos caminhos legítimos das forças do Estado e não por ações isoladas calcadas em fatores casuais como sorte e oportunidade fora dos trâmites da lei, ainda que por altruísmo consolidado pelas atitudes de desejar a erradicação de células perniciosas para a harmonia do bem coletivo. Espero ver esse diretor em ação mais vezes, pois provou que merece oportunidades para construir coisas maiores! Falam que histórias por mais de 2 horas são arrastadas, mas quem diz isso está desacostumado com as produções britânicas, provavelmente não conhecem a belíssima (e longa) série policial VERA, que traz episódios extensos!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Pearl (2022)


Por Daniel Gonçalves


Estou gostando dessa história de resenhar os filmes que assisto, claro que isso não se aplica em todos, mas reconheço uma motivação interessante para escrever os textos que levo ao ar neste espaço. A bola da vez é o filme Pearl, de nacionalidade dividida entre Estados Unidos e Canadá, lançado em 2022. Fiquei impressionado com a qualidade fotográfica da produção, tanto nos ambientes externos, quanto nos locais fechados, isso conta pontos valiosos no resultado final (para mim nota máxima nesse quesito). Conta também com uma trilha sonora bastante envolvente, que aumenta a tensão instalada naquela atmosfera fervente. Entre uma pausa e outra, péssimo hábito que tenho, descobri que esse filme pertence a um universo expandido, com mais duas produções, desenvolvidas para formar uma trilogia. Pearl é o início da história, portanto, vamos lá!

Tudo começa em 1918, ano marcado por grandes acontecimentos no mundo, onde temos os momentos finais da 1ª Guerra Mundial assolando a Europa, e a Gripe Espanhola, pandemia que ceifou milhões de vidas. Nesse cenário, uma família vive do jeito que é possível, no interior do Texas, nos Estados Unidos. Pearl (Mia Goth), sua mãe Ruth (Tandi Wright) e seu pai, interpretado pelo ator Matthew Sunderland são os personagens com mais tempo de tela e que estruturam boa parte da trama. O pai, acometido por uma doença que o paralisou por completo, vive numa cadeira de rodas em estado praticamente vegetativo. A mãe, uma religiosa fervorosa, cuida dos afazeres domésticos do rancho e vive mergulhada em uma amargura depressiva prestes a explodir em sentimentos confusos e desproporcionais. Já Pearl, uma jovem que deseja se tornar dançarina de teatro e fazer muito sucesso pelo mundo.

Pelo tamanho da casa de campo que vivem, aparentemente eles não são uma família pobre, mas a doença do pai, somada com as limitações impostas pela guerra, reduziram drasticamente a condição financeira deles. Tanto que os animais são escassos, possuem somente uma vaca leiteira, um carneiro e alguns gansos que ficam perambulando pelo local. Os poucos centavos economizados pela mãe são para comprar migalhas na cidade e remédios para o pai, o principal da lista, sulfato de morfina, para aliviar a dor física. Nesse ambiente, contaminado por uma tensão permanente, um sonho reprimido da Pearl, que utiliza a necessidade de ir à cidade para satisfazer pequenos caprichos, como por exemplo, ir ao cinema. Nele são rodados as primeiras películas, em um recinto esvaziado, muito por conta da pandemia e guerra acontecendo ao mesmo tempo (tem até o clichê de pessoas tossindo, apenas para reforçar a sensação de medo por contaminação).

Antes que eu me esqueça, Pearl é casada com um jovem idealista (e rico), Howard (Alistair Sewell), que foi voluntário a defender seu país na guerra. Ela demonstra um sentimento misto de ansiedade pelo seu retorno e ao mesmo tempo de revolta, pois queria ter ido com ele pelo simples fato de não suportar mais morar naquele rancho. Nesse momento percebemos alguns “gatilhos” sendo ativados na mente de Pearl, com pensamentos bizarros que passa bem longe dos norteadores escrúpulos de consciência. Não vou contar detalhes para evitar spoilers, mas adianto que Pearl inicia um processo perigoso de descontrole emocional, que a leva a um caminho sem volta. Delitos morais podem ser explicados (mas nunca justificados) pela opressão psicológica que sofre de sua mãe, que a desencoraja de praticamente tudo, definindo-a como uma alma condenada à viver sem grandes propósitos pessoais.

Entretanto, a mãe reconhece que Pearl possui desvios de conduta, por isso desaprova os sonhos da filha, que passa a ter um comportamento cada vez mais agressivo. Nesse ínterim, Pearl conhece um jovem que trabalha no cinema da cidade (interpretado por David Corenswet), e logo cria um laço amigável com o rapaz, mas que se torna impróprio nas cenas seguintes, por razões que ele desconhece, mas que ingenuamente acaba por encorajar Pearl a seguir com seus propósitos. Daí por diante temos sequências chocantes (diálogo verborrágico e agressões físicas) que passa muito pelo comportamento errático de Pearl, surpreendida pela mãe, que descobre mentiras contadas pela filha. De reações impulsivas e inofensivas no início, a protagonista passa a ter surtos psicóticos, com atitudes descompensadas, alterações no tom e velocidade da voz, enxergando qualquer um como inimigo e crises que só vão catapultando a imagem singela criada nas primeiras tomadas.

Quem assistir poderá pensar, num primeiro momento, que a mãe subestimou o estado psicológico de Pearl, mas eu interpreto isso como uma falta de informação do que o puro neglicenciamento com a situação. Ruth estava com o universo povoado pela ininterrupta vigília ao marido inválido na cadeira de rodas, um diálogo expressa bem esse fardo, quando ela diz que queria fazer o papel de esposa e não o de “mãe” do marido, dadas as circunstâncias que lhe foram impostas. E também estamos falando de 1918, uma época em que a tecnologia e comunicação ainda encontrava barreiras homéricas para difusão da informação (só havia o rádio e a carta). Para piorar, no meio de todo esse turbilhão de inconsequências, Pearl decide participar de um teste para dançarina organizado pela igreja da cidade, mola propulsora para mais problemas, começando pela irredutível desaprovação da mãe, que expressa argumentos duros e sem o menor sinal de empatia com a filha.

Eu ainda não assisti ao filme “X – A Marca da Morte”, lançado também em 2022, meses antes de Pearl, e que passa no ano de 1979, já com a protagonista em idade avançada. O filme termina com uma cena que lembra bastante, talvez até seja uma homenagem, provavelmente ao personagem principal do filme “O Homem que Ri”, de 1928, ainda que muita gente possa pensar que seja uma “coringada”, alusão bem definida do supervilão da DC Comics, muito mais popular no universo cinematográfico. De qualquer forma, relevo essa escorregada, já que estamos falando de uma história ambientada em 1918, tempo em que nenhum dos personagens havia sido criado. Mas entendo e estou de acordo com essa “licença poética”.

O monólogo final em que Pearl se coloca hipoteticamente diante do marido, mas que na verdade discursa o que sente e os atos cometidos para a sua cunhada (Misty, interpretada pela Emma Jenkins-Purro), é de uma atuação marcante (sem interrupções), colocou à prova o resultado de uma mente dominada por uma força inexplicável, concatenando ações com justificativas plausíveis sob sua perspectiva, tudo para ser absolvida antes mesmo de ser descoberta. Cena impactante que foi se desenrolando igual a um novelo, com gradações que foram escurecendo, se distanciando aos poucos do senso de realidade, tudo sendo conduzindo meticulosamente a uma parede intransponível. Mas não para ela, é claro! O filme é um prato cheio para psicanalistas e psicólogos, pois a história se concentra na construção de personagens perturbados por questões existenciais (e também genéticos) que desafiava os conceitos sociais e a literatura médica, sob o escopo vigente da época.

O filme “Pearl” está disponível no serviço de streaming Prime Video e tem a classificação indicativa não recomendável para menores de 16 anos.

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Dados técnicos:

Nome original do filme: Pearl.

Direção: Ti West.

Roteiro: Ti West e Mia Goth.

Duração: 102 minutos (com abertura e créditos finais).

Procedência: Estados Unidos e Canadá.

Ano de lançamento: 2022.

Disponível: Prime Video.